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Entrevista

Cenário urbano pode reduzir crimes

Circe Monteiro, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco

A arquiteta Circe Monteiro trabalha para desarmar arapucas urbanas que favorecem a criminalidade | Priscila Forone/ Gazeta do Povo
A arquiteta Circe Monteiro trabalha para desarmar arapucas urbanas que favorecem a criminalidade (Foto: Priscila Forone/ Gazeta do Povo)

O assalto é o segundo tipo de crime que mais cresce no mundo, de acordo com as estatísticas do Escritório de Drogas e Crime da Organização das Nações Unidas. Só perde para o tráfico de drogas. Entre 1995 e 2006, o roubo à mão armada cresceu 25% nos países membros da ONU. Na América Latina, a taxa de vitimização desse tipo de crime é o dobro do restante do planeta: 7% dos latino-americanos já foram assaltados, contra 4%, em média, em outros países.

A arquiteta e doutora em Sociologia Circe Monteiro, pesquisadora do Laboratório de Tecno­­logias de Investigação da Cidade (Lattice) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), coloca o assalto como alimentador da sensação de insegurança cada vez maior nas cidades.

O abandono e o desuso de lugares públicos considerados perigosos abrem caminho para sua apropriação absoluta pelos criminosos, pondera Circe. É nesse ponto que a prevenção de crimes por meio da organização de ambientes se aplica. Arquitetos, urbanistas e gestores urbanos trabalham para combater a criminalidade por meio da modificação do próprio espaço em que ela se dá. No Recife, o Lattice está coordenando uma pesquisa nessa linha. "Nosso trabalho é diminuir as oportunidades de o crime acontecer".

Por que a gestão urbana deve ter em mente o assalto?

Temos o assalto sempre ligado a um alto nível de violência psicológica. É um crime que coloca todo mundo em posição de vulnerabilidade, porque é muito mais fácil a pessoa se sentir a perigo de ser assaltada do que a perigo de ser morta. É importante enfrentar esta questão, não dá mais para considerar isto um crime secundário porque não é, a princípio, um crime contra a vida. Mas é um crime que está destruindo a vida na cidade.

Por que é um crime tão nocivo?

Porque gera o medo. O medo é o componente da vida urbana mais danoso e é maior que a própria criminalidade. Leva a uma mu­­dan­ça de comportamento que tem feito a população da cidade se proteger cada vez mais, fechar-se em casa, por trás de muros e trancas, e usar cada vez menos a rua e os espaços públicos. Isso tem gerado espaços urbanos mais vulneráveis, o que por sua vez leva a aumentar não só a violência, mas a sensação de insegurança.

Que características tornam um lugar propício ao assalto?

Você tem associações de elementos que, quando aparecem juntos, tornam o espaço mais vulnerável. Analisando o microespaço do crime percebemos a presença de muros altos e longos, pouca iluminação, restrição do campo visual e do movimento e ruas com baixa movimentação. Outro exemplo são as quadras longas, que não deixam qualquer alternativa de rota. O espaço urbano pode ser um elemento a contribuir para a prevenção ao crime, quando favorece um comportamento das pessoas de maior uso, maior vigilância.

Quais os elementos que desencorajam o assalto?

Os lugares mais seguros estão onde você tem a presença de vários elementos diferentes. A presença simultânea de carros, pedestres e ciclistas, por exemplo, ou de comércio e residências. Até uma rua de mão dupla é mais segura que uma de via única, porque impossibilita a montagem das chamadas arapucas, quando bandidos fecham uma extremidade da rua e fazem um arrastão nos carros parados.

Qual a efetividade dessas intervenções?

Para combater a criminalidade deve se buscar não criar oportunidades. O que está acontecendo com essa urbanização desestruturada, que não considera a apropriação do espaço pela população, é que a cidade só está criando oportunidades para os criminosos. A rua é lugar dos criminosos quando as pessoas têm medo de andar. É claro que o nosso trabalho, na verdade, só desloca a criminalidade para outra área, e então para mais outra. Porque uma solução global só vem quando se aliam medidas micro com políticas macro, de inclusão socioeconômica.

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