
O risco relativo de morte em crianças nascidas de cesariana é oito vezes maior do que em bebês trazidos à luz por parto normal. A conclusão é de uma pesquisa da Universidade Estadual de Maringá (UEM) que analisou mortes de 569 crianças menores de 1 ano. Os casos estudados ocorrem em um período de 10 anos. O trabalho foi desenvolvido por Denise Albieri Jodas, para uma dissertação de mestrado em Enfermagem, sob orientação de Maria José Scochi, doutora em Saúde Pública.Maria José afirma que uma explicação para o resultado da pesquisa está no fato de que, na cesárea, o feto nem sempre está pronto para nascer, como ocorre no parto normal. "Quando uma criança nasce de parto normal, ela está pronta, com o corpo preparado. É importante que a mulher que escolher a cesárea tenha em mente que os riscos são maiores".
Ela acrescenta que, mesmo que não venham a óbito, crianças tiradas do útero materno antes do tempo podem sofrer problemas diversos, como a má-formação de órgãos. "A última parte da criança que se desenvolve é o pulmão, que, quando tirado antes do tempo, pode apresentar problemas. Crianças assim terão mais riscos de desenvolver pneumonia".
Segundo a pesquisadora Denise Albieri Jodas, o objetivo da pesquisa foi encontrar informações sólidas nos casos de mortes de crianças menores de um ano para aprimorar a assistência prestada às mães e aos bebês. "Dos casos que investigamos, 65,9% representaram óbitos neonatais. Isso prova que os óbitos neonatais são aqueles de maior frequência e merecem uma atenção especial. Percebemos com os casos que o parto cesariano pode ocasionar a síndrome de angústia respiratória e prematuridade iatrogênica no recém-nascido, além de infecções puerperais, embolia pulmonar, íleo paralítico, hemorragias, reações indesejáveis da anestesia na mãe. Conclui-se que o parto cesariano só é interessante quando existem riscos para a mãe, feto ou ambos, antes ou no decorrer do trabalho de parto".
O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) reconhece os riscos que as cesarianas oferecem aos bebês e defende o procedimento natural, sempre que possível. "O parto normal estima o funcionamento dos órgãos da criança", explica o obstetra e presidente da delegacia de Maringá do CRM, Natal Domingos Gianotto.
A pesquisa desenvolvida em Maringá foi concluída em janeiro deste ano e enviada, para publicação, a revistas cientificas nacionais. Os dados coletados correspondem a mortes ocorridas entre 1996 e 2006, em hospitais de Maringá. Para tabular as estatísticas, a pesquisadora se valeu de uma epidemiologia matemática, o que a permitiu chegar ao índice de risco relativo.
O conceito de risco relativo é utilizado para relacionar a probabilidade de um evento acontecer em um determinado grupo, na comparação com outro. No caso da relação entre os tipos de parto, o índice foi obtido pela comparação entre os números de óbitos de cada uma das duas modalidades.
Apesar de os dados coletados serem apenas de Maringá, a pesquisadora afirma que a conclusão pode ser tomada como base para todo o país.
Para CRM, pais ainda não conhecem o perigo
O obstetra e presidente da delegacia de Maringá do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Natal Domingos Gianotto, diz que a cesariana trouxe comodidade aos médicos e aos pais, mas muitos não conhecem os riscos a que se expõem, até por falta de orientação dos profissionais.
"É muito mais cômodo para o médico fazer o parto normal, porque há um horário agendado e o procedimento é mais rápido. Cabe ao obstetra orientar cada paciente e explicar os riscos, como a própria pesquisa da UEM apontou. Mas já percebemos que os profissionais não fazem isso, na prática, o que é totalmente errado. Em reuniões sempre orientamos os profissionais a prezarem pela vida e pela saúde das crianças", diz Gianotto.
Ele diz que muitas mães chegam às clínicas com opinião formada e decididas a fazer o parto cirúrgico. Em alguns casos, segundo ele, fica praticamente impossível reverter a posição dos pais. "Com o passar dos anos, houve uma inversão de valores. A mulher não quer perder tempo nem sentir dor. Algumas chegam à clínica com data marcada para o nascimento e até com fotógrafo agendado. Um absurdo".
O parto cirúrgico, segundo Gianotto, pode apenas ser recomendado a pacientes com contra indicação ao parto normal. "A cesária só deve ser feita quando a paciente não pode ganhar o bebê pelos procedimentos normais, como em casos de ausência de dilatação e descolamento de placenta".
Dados do Ministério da Saúde apontam que as cesáreas representam 80% dos partos realizados na rede particular do país. Na rede pública, não há estimativa, segundo a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde.



