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Deslizamento na Praia do Bananal, na Ilha Grande, Baía de Angra dos Reis: hóspedes e moradores do local foram surpreendidos  pela terra  que desceu do morro | Bruno Domingos/Reuters
Deslizamento na Praia do Bananal, na Ilha Grande, Baía de Angra dos Reis: hóspedes e moradores do local foram surpreendidos pela terra que desceu do morro| Foto: Bruno Domingos/Reuters

A chuva que atingiu Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, nas últimas 12 horas do dia 31 de dezembro e nas primeiras 12 horas do dia 1º de janeiro foi o maior volume de água em 24 horas dos últimos dez anos, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Foram 142,9 mm de água – um valor normalmente registrado em todo um mês.

Nessas condições, segundo o geólogo José Tadeu Tommaselli, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), mesmo um morro totalmente preservado e sem impacto humano nenhum correria risco de avalanches de terra.

"Qualquer chuva acima de 70 mm é um indicador de problemas. E choveu muito mais que 70 mm", explica o cientista.

No primeiro dia do ano, as chuvas na cidade causaram o deslizamento de dois morros, um em Ilha Grande e outro na parte continental de Angra. Ao todo, 52 pessoas morreram. Uma ainda está desaparecida.

Antes da chuva da virada, os maiores valores registrados pelo Inmet em 24 horas na região nos últimos dez anos foram de 129,3 mm em 9 de dezembro de 2002 e 117,5 mm em 25 de outubro de 2003. A maior chuva em um dia da história de Angra ocorreu na década de 1960: 191,4 mm em 22 de dezembro de 1965.

A causa de tanta água, de acordo com o meteorologista Fabrício Daniel dos Santos Silva, foi a formação que levou para a região do litoral do Rio de Janeiro massas de ar mais úmidas, que combinam tanto nuvens que causam precipitações intensas como aquelas que geram chuvas mais fracas, mas mais duradouras.

Ainda assim, o meteorologista afirma que essas chuvas são consideradas normais. "São normais alguns eventos de precipitações muito intensos nas mais diversas regiões do país, quando estas estão passando pelo seu período mais chuvoso", explica Silva.

O também meteorologista José Fernando Pesquero, do Grupo de Previsão Climática do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), concorda.

"Estamos em um mês de verão. O calor associado ao anômalo transporte de umidade que está ocorrendo da região norte do Brasil para as regiões sul e sudeste é o responsável por estas chuvas. As frentes frias estão passando apenas pelo oceano Atlântico", explica. "Esse transporte intenso de umidade associado ao fenômeno El Niño, que já é conhecido de provocar chuvas, pode estar provocando chuvas mais intensas",afirma.

Os meteorologistas também afirmam que não há motivo para achar que os temporais são culpa das mudanças climáticas associadas ao aquecimento global.

"Todos os pesquisadores do clima são unânimes em afirmar que ainda não se pode associar tais eventos diretamente às mudanças do clima. Até porque tais eventos intensos sempre ocorreram", afirma Silva.

"A atmosfera possui um número quase que infinito que sistemas que estão interagindo com ela. Estes vão de um El Niño até os escapamentos dos carros, soltando poluição. Por isto é complicado dizer se alguma chuva em particular, que ocorreu na atmosfera, teve tal culpado diretamente", diz Pesquero.

Tanta água, para o geólogo José Tadeu Tommaselli, aumenta a possibilidade de deslizamentos em morros. Isso por que as rochas, em áreas de encosta, são mais próximas do solo. "A água penetra no solo, chega na rocha e represa. Isso vira lama. Todo esse bloco de solo, que estava em cima, perde o atrito e desliza. Despenca", explica Tommaselli.

Segundo o pesquisador, mesmo que os morros estivessem preservados eles poderiam ter desabado. "Esse é o primeiro grande erro das pessoas. A área não estar impactada não significa que isso não vá acontecer. A natureza se movimenta o tempo todo", diz ele.

"Tudo tem uma tendência a ir para o fundo do vale. Quem está morando ali tem que saber que está correndo perigo", explica. Outras cidades

Os dados do Inmet também mostram grandes volumes de chuvas em outras cidades do país afetadas pelos alagamentos.

Em São Paulo, a chuva do dia 8 de dezembro causou muitos transtornos no trânsito e alagou bairros inteiros.

Segundo os dados meteorológicos, foram 97 mm de chuva. Mas a cidade já enfrentou precipitações mais intensas recentemente.

Em 8 de fevereiro de 2007, choveu 103,3 mm na capital paulista. Em 25 de maio de 2005, foram 140,4 mm – o recorde dos últimos 50 anos.

Já a cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), que teve seu centro histórico destruído, foi vítima de uma sequência de chuvas, menos intensas que as de Angra e São Paulo, mas ainda assim bastante fortes.

Em 28 de dezembro, choveu 35,2 mm. No dia 29, foram 46,8mm e no dia 30, 31,4mm. No último dia do ano, foram 11 mm de chuva. Mas a trégua foi momentânea. No primeiro dia de 2010, choveu 56 mm na cidade.

A estação meteorológica da cidade foi instalada em novembro de 2007. De lá para cá, o recorde registrado foi de 66,4 mm em 21 de dezembro de 2008.

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