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Entrelinhas

Cláudio Feldens e a arte do bom humor até a morte

 | Hedeson Alves/ Gazeta do Povo
(Foto: Hedeson Alves/ Gazeta do Povo)

É estranha a certeza da ausência permanente. Quando alguém que nos é querido se afasta por algum tempo para tratar uma doença, agarramo-nos à confiança de que logo voltará. Assim se dava nas breves ausências de Cláudio Feldens (foto) nos quatro anos em que lutou contra um câncer de cólon. Ele ia, mas voltava – sempre acompanhado do seu infalível bom humor –, renovando com sua presença a confiança de que os amigos precisavam. Ontem, porém, Cláudio se foi para sempre, deixando entre amigos e familiares essa incômoda certeza da ausência permanente.

Às 12h30, ele recebeu o golpe final do tumor no intestino contra o qual "peleava" – como gostava de dizer – havia quatro anos. Falência múltipla dos órgãos, o derradeiro diagnóstico após a metástase que pegou também fígado e pulmão. Cláudio tinha um modo peculiar de encarar a quimioterapia. Saía da clínica para o trabalho. Não era do tipo que se acomodava nem com os rigores da doença. Preferia os enjoos potencializados pelas letrinhas do computador a ficar estirado no sofá da sala vendo a Sessão da Tarde. A vida era mais.

Quem melhor pode contar sobre quem foi uma pessoa são o seu legado e as pessoas que com ela conviveram. Foram 20 anos de Gazeta do Povo, uma união tão longeva que só mesmo a morte para separar. No jornal, trabalhou na editoria Internacional – numa feliz coincidência, nome do time do coração –, foi editor da capa da Gazeta e nos últimos anos editava a coluna Entrelinhas, a seção de serviços do periódico. Ali, exercia o ofício de jornalista a serviço do cidadão. O bom humor se fazia presente nos interstícios do texto. Não fosse assim, não seria obra do Cláudio.

Não tá morto quem peleia

O desprendimento vem desde os tempos de piá nos pagos do Rio Grande do Sul. Quarto de sete irmãos, Cláudio nasceu na zona rural de Pelotas (RS), a 12 de fevereiro de 1957. Estudou Magistério na Escola Evangélica Ivoti e foi professor de Português de 1ª a 4ª série. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas em 1982, na turma da irmã Martha Feldens e da amiga Marisa Valério. Trabalhou na Folha do Mate, de Venâncio Aires (RS), e no Correio do Estado, de Campo Grande (MS). Ingressou na Gazeta em 1992.

Cláudio era desses que faziam troça da própria dor. "Não tá morto quem peleia’, repetiu umas quantas vezes na redação da Gazeta do Povo entre uma quimioterapia e outra. Era divertido em tempo integral. Cláudio deixa a mulher, Gertraud, e três filhas, com as quais contava para enfrentar a doença com confiança e bom humor. Transbordava orgulho na formatura de cada uma delas: uma em Direito, outra em Pedagogia e a terceira em Veterinária. Ele está sendo velado na capela do Cemitério Luterano, onde será sepultado às 16 horas.

Ano passado, na festa de confraternização da redação da Gazeta do Povo, ele foi eleito pelos colegas como o melhor amigo. Saudemos Cláudio Feldens com alegria, porque ele não gostaria de ver ninguém chorando.

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Frases

Veja o que dizem os colegas de redação sobre o jornalista Cláudio Feldens:

Há coisa de quatro anos passei a ter o Cláudio Feldens como editor. Entrei como "voluntário" na coluna Entrelinhas, fazendo a edição de domingo da seção Conversa Afiada. Trata-se de um minipingue pongue de três perguntas, com populares, e míseros 1,2 mil caracteres, agora a cargo da colega Aline Peres. Sempre tinha choradeira, viravam 1,5 mil caracteres, com a conivência do editor. É um caso raro de convivência entre editor e jornalista não implodida pelos caracteres a mais ou a menos. Espero que as frases a mais que ele permitiu a cada domingo tenham feito a diferença na vida de alguém. A convivência com ele, claro, fez muita diferença na nossa.

José Carlos Fernandes, repórter especial

"Eu nunca mais vou conseguir contribuir com Entrelinhas. Para mim o Cláudio representava a alegria com o inusitado. Tudo o que acontecia na rua de diferente eu passava para ele, que sempre recebia com entusiasmo, dizia que estava ótimo e ainda mandava ilustrar."

Helena Carnieri, editora assistente do Caderno G

"O Cláudio era o meu vizinho de mesa. Sempre de bom humor e diariamente com uma nova piada, mesmo que o personagem fosse um gaúcho. Agora, o duro era agüentar quando o Internacional ganhava e ele vinha para a redação com a camisa do Colorado. E ainda fazia questão de deixar seu celular na mesa, que quando acionado, tocava um vanerão – seu tipo de música preferido. Além do vanerão, ele ainda tinha o hino do Internacional como toque de seu celular."

Roberto Massignan Filho, editor de Automóveis

"Entre um gole de café e outro, um dia o Cláudio, bom gaúcho, me perguntou: ‘você conhece o Guri de Uruguaiana?’ Disse que não, e logo ele pediu para abrir o YouTube. ‘Digita aí: The Guritles.’ Gaúchos com grandes bigodes apareceram na tela, tocando uma versão engraçadíssima da música ‘Help’, dos Beatles. "Melhor que o original, não é?’ O Cláudio era isso: um mensageiro da alegria."

Cristiano Castilho, editor assistente de Vida e Cidadania

"O Claudião era uma daquelas pessoas divertidas e alegres que transpiram um prazer delicioso pela vida. Gostava da minha gargalhada alta e, por isso, sempre ia à minha mesa fazer graça. Mesmo já bem doente não abandonava o bom-humor e o otimismo. Quando eu perguntei porque ele continuava a vir pra Redação, mesmo fazendo tantos tratamentos e quimio ele me respondeu com um sorriso: ‘Não quero mudar de nome não, Lu! Ao invés de Claudio eu ia virar o ‘Já que vc tá aí’ . Já que você tá aí, lava essa louça. Já que você tá aí, vai comprar pão...’ . Adivinha se ele não me arrancou mais um riso sonoro e escandaloso. Claudio, você vai fazer muita falta. Muita!"

Luciane Horcel, editora On-line

"‘Não tá morto quem peleia’, Cláudio repetia com o seu ótimo humor peculiar. E realmente o Gaúcho peleou até o fim. Sentirei muita falta do astral contagiante do meu vizinho de mesa."

Renyere Trovão, repórter do Caderno Automóveis

"Era um grande papo. Certa vez, quando fazia Geral no Online, comentei que praticamente todos os meteorologistas eram conterrâneos dele, de Pelotas. Aí veio a revelação: a principal escola da profissão fica lá e que ele chegou a pensar em um momento da juventude em ser meteorologista, sendo demovido pela avalanche de cálculos que os previsores do tempo fazem. De certo modo, o Cláudio era uma previsão de tempo sempre boa. Só não falo que era um céu azul porque ele era torcedor ferrenho do Internacional. As lembranças que ficarão dele são de um cara sempre aberto ao diálogo e que ajudava sempre os novatos, como eu fui um dia."

Leonardo Bonassoli, repórter de Esportes

"Jamais vou esquecer do Cláudio soltando um sonoro "BOAS TARDES!" ao chegar na redação; da maneira como ele me chamava, "Poniewanss", retirada da grafia arcaica ou errônea de algum parente distante. E do orgulho com que vestia a camisa do Sport Club Internacional depois de cada vitória do seu amado Colorado. Coisa de gaudério valente, de quatro costados. Sem falar na vez em que eu, curioso por lembrar de alguns daqueles famosos ditados gaúchos, fui presenteado com uma lista desses provérbios impressa por ele. "Firme que nem prego em polenta?", brincávamos. Sem o seu bom humor contagiante, a redação está "mais séria do que cachorro em canoa"! Descanse em paz, Cláudio, porque "não tá morto quem peleia". E isso você fez como ninguém..."

Luigi Poniwass, editor da Revista da TV

"Na semana em que comecei a trabalhar na Gazeta do Povo, há pouco mais de dois anos, um gaudério entrava na antiga sala do núcleo de Agronegócio para cumprimentar a equipe de jornalistas que ali trabalhava e também para conhecer aquele que seria o seu novo ambiente de trabalho – na época, a redação iniciava uma série de reformas e isso tirou alguns profissionais de seus lugares temporariamente. Cláudio Féldens ficou conosco alguns meses e, a cada dia de convívio com o gaúcho, tínhamos uma prova de que a vida vale a pena até mesmo para quem tem de enfrentar uma doença que parece imortal e que leva tantas boas almas desse mundo precocemente. A do Cláudio foi uma delas, sem dúvida. Um sujeito que sempre nos ensinava a enxergar o lado bom da vida. "A vantagem de estar doente é que posso usar o FGTS para trocar de carro", brincou ele um dia, pouco depois de receber a ligação de uma vendedora que tentava lhe empurrar um automóvel novo. Sou um dos tantos privilegiados por trabalhar com esse ser puro, querido e exemplar. Após a luta travada nessa vida, espero que os anjos do céu o recebam com um bom e merecido churrasco."

Cassiano Ribeiro, editor de conteúdos digitais do núcleo de Agronegócio da Gazeta do Povo.

"Além do talento profissional, uma de suas marcas era a alegria. Trabalhar, para ele, era prazeroso. Era um baita dum cara."

Francisco Camargo, ex-chefe de Reportagem da Gazeta do Povo

"O Cláudio foi uma pessoa que marcou pelo companheirismo e bom humor. Uma pessoa que sempre demonstrava estar de bem com a vida."

Nelson Souza Filho, ex-diretor de Redação da Gazeta do Povo

"Não esqueço que sempre que o encontrava, o saudava com o verso de uma música famosa do grupo gaúcho Os Farrapos: ‘Ala pucha tchê, não se assustemo. Se no perigo a bala vem nóis se abaixemo’. O ‘pucha’ escrito desta forma, não sei o que quer dizer no idioma gauchês. Sentiremos saudades deste gordo bonachão que sempre estava de bom humor.

Antonio Costa, repórter fotográfico

"Cláudio Feldens, nosso querido colega, nos deixou ontem, após lutar bravamente contra um câncer nos últimos anos. Titular da tradicionalíssima coluna Entrelinhas, o gaúcho – como o chamávamos – era espirituoso que só. Se ouvia uma piada de conterrâneo, logo vinha com outra "pior". O toque de seu celular era o hino do Internacional, seu time do coração. Além de vizinhos de página, éramos vizinhos de mesa na redação, o que me proporcionou conviver muito com ele e a admirá-lo, como todos aqui, que ainda choram sua repentina ausência."

Reinaldo Bessa, colunista da Gazeta do Povo

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