Apesar de hoje Campo Largo ser conhecida como a capital da louça, foi a cidade de Colombo que recebeu primeiramente o título, pelo menos 40 anos antes. Não se sabe ao certo quando a fábrica começou a funcionar, até porque muitas abriram com uma produção artesanal tímida, de fundo de quintal e sem registro algum. Notícias sobre a fabricação de porcelanas, porém, surgem na década de 1880. Foi pelas mãos do imigrante italiano Francisco Busato que as primeiras louças começaram a ganhar forma, nas margens do tanque do Rio Butiatumirim, onde hoje se encontra a Rua Orlando Ceccon.
Busato e outras famílias vindas da região de Vêneto, na Itália, chegaram ao Brasil e se instalaram na Colônia Alfredo Chaves, a 23 quilômetros de Curitiba. A colônia foi elevada a município de Colombo em 1890, por isso a indústria primeiramente passou a ser chamada de Fábrica Colombo. Peças especiais como o leque e a sapatilha que ilustram esta página são as mais antigas a que se tem acesso hoje: são de 1897 e pertencem a um colecionador particular. "Nos primeiros selos das peças é possível encontrar a sigla FB Colombo Paraná. Ela identifica o nome do produtor e a localização de onde as peças eram feitas", explica a historiadora Martha Helena Loeblein Becker Morales, que estudou a história da fábrica durante a pesquisa de dissertação de mestrado na Universidade Federal do Paraná.
Origem
Busato vem de uma região italiana onde a produção de cerâmica era comum e, ao chegar em Colombo e encontrar matéria-prima, o caulim (tipo de argila branca), conseguiu dar continuidade ao trabalho que já sabia fazer. "Quando ele instala a fábrica, manda vir da Itália artesãos especializados na produção de cerâmicas. É o caso de João Bortolani, que veio ao Brasil e era formado em Belas Artes. Ele foi o responsável pela produção das peças mais elaboradas e detalhadas. Também ficou conhecido por pintar uma parte do teto do antigo Paço Municipal de Curitiba", explica Martha.
Com a expansão dos negócios, no início do século 20, Busato abre a sociedade com o ervateiro e coronel Zacarias de Paula Xavier que era membro da Associação Comercial do Paraná. Em 1903 acontece a reinauguração da fábrica e diversas peças comemorativas são criadas. "É importante notar que eles eram italianos, mas homenageavam paranaenses. Havia um esforço da parte desses imigrantes em se inserir num grupo que era hegemônico. Placas em homenagem ao governador Francisco Xavier da Silva foram feitas, assim como ao arcebispo da época", explica Martha. As mulheres também faziam parte da linha de produção, visto que objetos femininos como o sapato e o leque foram criados. Depois que Zacarias passa a ser sócio da fábrica, o processo artesanal perde força e espaço para os produtos mais industrializados a produção da pintura à mão vai desaparecendo com o processo decorativo de decalque ou transfer (louça feita por impressão).
Mudança de planos
Na primeira década do século 20, com a expansão industrial na região, uma outra cooperativa começou a usar o nome Fábrica Colombo (não havia registro de patentes e marcas na época), o que força Busato e Zacarias a alterar o nome da fábrica: a escolha foi por São Zacarias. Por volta de 1908 a produção de peças girava em torno de 10 mil por dia. "Era algo bastante expressivo para o período", lembra Martha. A pesquisadora explica que não há uma data oficial, mas que foi nesse período que Zacarias passou a ser o proprietário único da fábrica, quando o nome de Busato acaba desaparecendo dos documentos. "Isso acontece de tal forma que, depois do século 20, conta-se a história da fábrica como se ela tivesse sido fundada por Zacarias, o que não é verdade", afirma.
Produção
Pratos, xícaras, vasos, floreiras, bules e peças especiais foram produzidas em Colombo, ou seja, todo o tipo de faiança fina. "Como a louça é algo bastante frágil, as peças usadas na cozinha e que se quebravam, por exemplo, normalmente eram descartadas. Por isso o que resta para pesquisa são as porcelanas mais elaboradas. O sapato e o leque, por exemplo, não são como bibelôs, pelo contrário, são peças grandes. O sapato é do tamanho de um pé, é oco por dentro como se pudesse ser calçado. São peças pesadas", explica Martha. Há registros de que a fábrica chegou a exportar para a Argentina e ao Nordeste brasileiro.
Busato se naturalizou brasileiro para ser prefeito de Colombo em 1904 e depois foi deputado também. "São pessoas que tinham um envolvimento político, assim como Zacarias que era um ervateiro conhecido", diz Martha.
O fim
As fábricas do século 19 funcionavam em estabelecimentos feitos de madeira, o que era um perigo constante. Com as fornalhas trabalhando a temperaturas elevadíssimas, os incêndios foram inevitáveis. A então Fábrica São Zacarias sofreu um acidente em 1926: o fogo destruiu as instalações e acabou com o maquinário existente. O decreto de falência era inevitável.
Serviço:
A 19.ª Feira Nacional da Louça em Campo Largo, na região metropolitana, acontece de 2 a 12 de setembro. No Ginásio da Rondinha, na Rodovia do Café (BR-277), km 20. De segunda a sexta-feira, das 14 às 22 horas; sábados, domingos e feriados, das 10 às 22 horas. Ingressos, R$ 3. Crianças até 12 anos e idosos acima de 60 anos não pagam.



