Fiel ao princípio de que todo derrotado vira um filósofo, passei a matutar as razões de tão fragoroso desastre na Copa do Mundo. Viciado em literatura, que sempre melhora a vida para lhe dar um sentido que está ausente das coisas elas mesmas, imaginei um Parreira secreto, uma inteligência fina oculta naquele silêncio quase oriental que, lá do banco, olhar bovino, via o time afundar no gramado.
Minuto a minuto, ele conferia o relógio, louco para se ver longe dali o quanto antes. A partida nem tinha acabado e ele já desenhava as frases que teria de dizer na entrevista coletiva, enquanto ainda esperava um milagre o Cafu fazendo enfim um cruzamento decente, o Roberto Carlos acertando a bola e não ajeitando a meia, o Ronaldinho avançando num rosário de dribles em câmara lenta (a propaganda de guaraná ao fundo) para o gol libertador e aquela risada feliz de sonoplastia. Nada.
O cronista aprendiz também fracassou: não havia um Parreira secreto, a criar um time para cada jogo, como num xadrez bem calculado nem mesmo sangue, suor e lágrimas, o que sempre nos aproxima. O Nada é que irritou. Ao lado, a sombra agourenta do Zagallo, que eu imaginava distante, vendo no jogo apenas as camisas que ele iria barganhar com os inimigos como souvenir, assim que terminasse aquela aporrinhação que se arrastava diante dele.
Tudo bem, a seleção foi muito ruim. Mas não entendo a agressão aos jogadores. Há essas pessoas incríveis que têm a pachorra de ir ao aeroporto esperar horas a fio só para xingar um atleta nunca vi fazerem isso com políticos corruptos, que vivem em aeroportos e merecem bem mais.
Na verdade, é preciso focar o problema: a seleção é sempre a cara do dono. Felipão é o pai de família perfeito para uma seleção latina (não sei se aquela gritaria paternal na beira do campo daria certo com ingleses ou alemães); Zagallo é confuso como a seleção de 98, e medíocre como a de 74. As de 82 e 86 são o retrato de Telê, e dão saudade. Já a atual é um clone de Parreira, que se revelou enfim ele mesmo.
A derrota para a França o primeiro time adulto que encontramos pela frente, depois de quatro treinos é a derrota integral de Parreira. Parreira montou o time; Parreira escalou os jogadores; Parreira desenhou uma cartografia tática e distribuiu os nomes em campo; Parreira escolheu titulares e reservas; Parreira fez as substituições ou deixou de fazê-las; Parreira deu o tom, a voz, o ritmo, o estilo da seleção; Parreira colocou Cafu e Roberto Carlos em campo, e achou que isso era bom, e foi descansar; e Parreira decidiu mexer no jogo quando já estávamos expulsos do Paraíso.
Mas sem tragédia, felizmente o mundo do futebol é talvez o único que de fato permite o eterno retorno dos sonhos dos filósofos. Daqui a quatro anos, tem mais. E, cá entre nós, depois de Alemanha e Itália, e de Portugal e França, melhor mesmo a gente ter descido do trem um pouco antes, porque lá na frente a vergonha ia ser maior.



