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Cristovão Tezza

Memória

Acordo com um apito de trem, mas não sei se é sonho ou um trem fantasma. Há algo de lúgubre nesse lamento que corta Curitiba, onde enfim me localizo, um trem que parece vir do nada e ir a lugar algum, ainda ao amanhecer. Fecho os olhos e me vejo adolescente, 40 anos atrás, num vagão de segunda-classe, descendo a Morretes e depois a Antonina. Uma viagem interminável. Saía às sete da estação e chegava às 10h40 em Antonina, depois de uma demorada baldeação em Morretes. O trem parava numa seqüência de entrepostos, cortando um Paraná que eu jamais via fora daquelas janelas. Sabia de cor todas as paradas e gostava especialmente de contar os túneis entre Véu de Noiva e Marumby.

Em Antonina, encontrava a trupe do mestre W. Rio Apa, então ensaiando a peça O pequeno solitário, de que acabei participando como sonoplasta em minha iniciação nesse mundo alternativo das artes. E ia namorar naquela cidade deliciosa – as mocinhas de Antonina eram bonitas e dançavam bem, nos bailes do Primavera. Participei também do primeiro grupo de Denise Stoklos, agora como iluminador da peça Círculo na rua, lama na rua (viajamos numa turnê inesquecível a Ponta Grossa e Irati), e em seguida, na confusão da memória, estou no antigo (e belo) teatro de bolso da Praça Rui Barbosa, onde trabalhei (não lembro em que) na peça As criadas, de Jean Genet, de que eu sabia todas as falas, acompanhando nos bastidores a hierática atuação de Danilo Avelleda e Cristo Dickoff, sob direção de Oraci Gemba. No ensaio para a censura da Polícia Federal, continuei escondido, menor de idade, de modo a não chamar a atenção da figura odiosa do censor que, inapelavelmente idiota, recomendava este ou aquele corte.

Na memória do velho apito de trem, estou também (68, 69...) no palco com Ariel Coelho, colega do Estadual, curtindo as montagens fantásticas (nos meus olhos de aprendiz) de Ari Pára-Raio, em outras duas peças, uma da Denise, outra de Manoel Carlos Karam, o grupo A Chave tocando em cena. Fumando Hollywood, eu circulava pelos cafés da Boca Maldita ouvindo conversa dos mais velhos e depois ia beber cerveja na Velha Adega, discutindo furiosamente com o jornalista Aramis Millarch e escutando reverente as palavras de Jamil Snege. Às vezes escolhia um filme para assistir em algum dos nove ou dez grandes cinemas de rua ao alcance de meia dúzia de passos. Sob o apito do mesmo trem, a ditadura militar se instalava no país para durar duas décadas – conhecidos eram processados, outros foram presos e torturados, alguns desapareceram. Nunca mais perdi a sensação de estar no mundo errado, num país paralelo que não é o meu – e não há outro para pôr no lugar.

Resta esse trem fantasma da madrugada, como quem desembarca súbito em outra estação e a quem não foi dado tempo de apreciar mais carinhosamente a viagem.

Cristovão Tezza é escritor.

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