Sempre imaginei que a atividade bancária fosse a mais antiga das profissões, contrariando o dito popular, mas a leitura de um ótimo relato sobre a família Medici, na Florença do século XV ("O banco Medici", de Tim Parks; ed. Record), colocou luz na minha ignorância um tanto maldosa. Os quase cem anos do Banco Medici, de 1397 a 1494, são uma ilustração fantástica de como o dinheiro pode alavancar um mundo novo o que inclui, também, uma boa parte das obras-primas que o Renascimento italiano nos deixou, algumas delas retratando, como santos, a cara tranqüila de um e outro banqueiro, que afinal pagavam a conta e tinham direito àquele pequeno paraíso antecipado.
Naqueles bons tempos, os juros eram "usura", e portanto um pecado. Como os papas, desgraçadamente, precisavam de muito dinheiro para levar a palavra de Deus a esse mundo perdido, comissões de teólogos discutiam, a sério, como resolver o imbróglio bíblico. Que tem uma origem simples e curiosa: toda riqueza só pode ser fruto do célebre suor do rosto que todos conhecemos, e o juro é algo produzido apenas pelo "tempo", esse mistério insondável. Mas se o tempo não produzisse dinheiro, por que um banqueiro emprestaria ao Papa? Como os bancos já não eram desde aquele tempo instituições beneficentes, os juros se disfarçavam de favores, uma prática que continua popular até hoje, e assim os Medici foram sobrevivendo. Tudo ia bem, mas o excesso de riqueza acabou transformando o banco Medici numa espécie de estatal, com gerentes que não podiam ser demitidos, e foi ao fundo. Naquele tempo não havia Proer.
Toda essa filosofia me veio à cabeça ao receber a conta de um cartão de crédito de um grande banco aqueles cartões que nos enfiam goela abaixo como se fossem um prêmio. Tudo somado, eu pagaria perto de 300 reais de "anuidade". Pensei em convocar uma comissão de teólogos que discutisse a justiça daquilo, ou então chamar a polícia para me defender, mas achei mais simples cancelar o cartão e cuidar da vida. Uma ilusão: nada é rápido nesse ramo milenar. Já ao telefone, você se vê na condição de culpado "Sua conversa será gravada para a nossa segurança", algo assim e em seguida um robô começa a oferecer opções em que sempre é só a última que interessa. Quando enfim um ser humano aparece, você ouve as frases-feitas que ele lê do manual. Entre elas, a de que a cobrança era um "custo administrativo". Como, além das taxas graúdas, o banco recebe em um mês o que compro com cartão, e entrega a prazo longo para as lojas que venderam é o velho "tempo" produzindo dinheiro , fiz uma proposta honesta: em vez de me cobrarem anuidade, eles me pagariam meio por cento de todas as compras que eu fizesse, uma remuneração razoável pelo lucro que dou ao banco. Mas o secretário dos Medici não se convenceu, e cancelei o cartão. Não há mais teólogos como antigamente.



