Numa palestra em Foz de Iguaçu, perguntaram-me sobre o que lia quando jovem e que livros recomendaria hoje. Sobre a atual literatura infanto-juvenil, sou incapaz de fazer uma lista perdi contato com a área, e hoje há um mundo editorial para jovens impensável nos meus tempos de criança. Na verdade, nos anos 1950 as crianças ainda eram consideradas "pequenos adultos", não raro assumindo responsabilidades que os pais não viam como incompatíveis com a pouca idade. Seguia-se uma hierarquia rígida, rituais de obediência que começavam pelo tratamento de "senhor" e "senhora" aos poderosos pai e mãe. Os libertários anos 1960 corroeram essa máquina familiar fechada, criando o modelo bem mais permissivo que hoje nos domina, para o bem e para o mal.
Lembrando minhas primeiras leituras, vejo que houve também uma mudança importante de visão-de-mundo. Comecei, como milhões de brasileiros, lendo Monteiro Lobato, um autor cuja diretriz primeira era "racionalizante". Tudo que se falava no célebre Sítio do Picapau Amarelo, a partir do atrevimento da boneca Emília, procurava explicar o mundo pelos olhos da razão e da lógica; não havia mistério que não pudesse ser desvendado, trazido à luz, colocado sob controle. No mundo de Lobato, a inteligência era um valor altamente positivo, de fato o único que contava; suas fábulas tinham sempre um sentido desmistificador.
O segundo autor que me fascinou foi Júlio Verne, um autêntico iluminista. Também sob o domínio da razão, os heróis de Verne devassavam todos os confins da Terra como quem abre um mapa a ser decifrado a ciência era o grande motor do mundo, e o progresso um valor positivo, desde que colocado ao lado do bem, por sua vez uma qualidade nítida, facilmente reconhecível. Enfim, já no ginásio do Colégio Estadual, devorava as aventuras de Sherlock Holmes. O clássico detetive de Conan Doyle era outra afirmação da razão: desvendar os mistérios de um crime é tirar dele a aura do incompreensível, do mágico ou do místico, e iluminá-lo pela poderosa luz da lógica, juntando pistas esparsas e delas extraindo a verdade.
Em síntese, fui criado por esse ideário, que nas décadas seguintes entraria em choque com a emergência de outro quadro de valores, então revolucionário a revalorização do Oriente, a mística do mundo natural versus o materialismo do Ocidente e a descrença da clássica "razão iluminista". Uma descrença que não veio em favor da "razão dialógica" (de que tanto carecemos, a organização tolerante das diferenças), mas de fundamentalismos políticos, religiosos, messiânicos, opressivos. De certa forma, o atual império dos alquimistas, templários, senhores dos anéis e mesmo do paganismo simpático do mundo de Harry Potter que hoje abarrotam as leituras dos jovens foi criado pela implosão dos valores que fizeram a cabeça "racional" do século 20.
Cristovão Tezza é escritor.



