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Os melhores temas para escrever aparecem nos momentos em que não faço nada, à espera – mas às vezes imagino se não seria melhor não ter ideia nenhuma, quando o preço é alto. Explico: dia desses me vi com uma ficha na mão, esperando ser atendido num espaço exíguo e cheio de gente. Nada para ler. Sem opção, ouvia conversa alheia. É feio, eu sei. Em situações assim, disfarço como posso, mas ouvidos não são olhos, que podem ser fechados. E o pior é quando os outros querem ser ouvidos, um fenômeno cada vez mais comum na era do celular. Tocou uma gargalhada ao meu lado e um sujeito grande tirou o celular do bolso. Ouviu três segundos e atalhou furioso:

– Mas eu já disse que ela devia mandar o documento pra lá! Expliquei dez vezes. Até mandei um e-mail, mas ela é analfabeta, não sabe ler! Então por favor você reforce o pedido. Não, cara! Não não não! Reforce o pedido, e se ela não...

Aí ele ficava ouvindo um tempão, emitindo resmungos com a cara fechada. Um gesto irritadiço de braço parecia pedir que o outro fizesse silêncio do lado de lá, até que ele cortou, aos gritos:

– Eu já disse que está tudo certo! – seguiu-se um xingamento. – A burra não entendeu! Ela faz ques­­­­­­tão de não entender nada que...

Tentei me afastar dali, o espaço estreito, absolutamente solidário com a moça que eu nunca vi na vida, mas que com certeza era o lado justo e certo daquela liça eletrônica. Imaginei-a assustada, tímida, trêmula, os olhos marejados diante daquele monstro, certamente promovido à chefia por ser parente do dono da empresa; talvez o nome dela fosse – apurei o ouvido ("A Rosa sempre me apronta dessas!", o sujeito gritou para todos, sacudindo a mão, o celular enterrado na orelha grande) – Rosa, pobre Rosa. Será que ninguém vai defendê-la, a coitada se matando pra fazer tudo certo e...

– Número quatro! – gritaram do balcão, e o ogro conferiu a ficha, gritando "Sou eu!" tanto para o balcão quanto para o pobre do celular, que ele fechou em seguida, avançando para ser atendido e quase derrubando quem encontrava no caminho. Respirei aliviado. Dei uns três passos adiante, achei uma nesga de lugar no banco e me acomodei, entrando imediatamente em outra sintonia, agora um sussurro irritado, mas perfeitamente público:

– Ah, amorzinho, você sabe que sempre te amei. Para com isso, vai!

Levantei em seguida, quase com saudade do troglodita, e captei outra frequência: "Aguenta aí que faltam só três números para a minha vez!". Caminhei em outra direção, ouvindo farrapos de conversas. "Não me diga que ela falou isso?!" Enfim no balcão, estou diante de um funcionário armado com o celular: "Cara, tem uma multidão aqui. Faz o seguinte: liga daqui a pouco".

E eu pensava que era só do cronista o "imprudente ofício de viver em voz alta", na bela definição de Rubem Braga – que, feliz dele, não conheceu o celular.

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