Se depender da torcida de Pelé, o Brasil deve se reencontrar com o Uruguai no Maracanã. Seria o unguento para cicatrizar a derrota de 1950. O Rei tem razão, entende? A desforra em nome do goleiro Barbosa seria também uma forma de restaurar a confiança em nossos arqueiros. Com exceção de um. De Barbosa ao Júlio César o predileto da família Scolari , nunca neste país tivemos um goleiro como Kaliempa, o cometa do Bigorrilho.
Antes da especulação imobiliária que engoliu o bairro, sete entre dez moradores do Bigorrilho eram polacos; dois eram ucranianos e um italiano. Todos fanáticos torcedores do União Bigorrilho, cujo campo se situava junto a um barranco que se fazia de arquibancada. Foi do alto daquele barranco que Kaliempa decolou para a história do campeonato suburbano. Desde piá era um polaquinho fominha de bola. No campo de grama nos fundos de sua casa a família criava gansos e ali era a arena onde a piazada do Bigorrilho se reunia no final da tarde para o trene.
Feita de couro em gomos, bexiga de borracha e ventil, a bola rolava na grama seca de geada. Sem traves, na falta das balizas de ripa improvisavam com as bostas das vaquinhas: duas bostas num lado, duas bostas no outro. Quando a bola batia na trave, era bosta pra tudo quanto era lado. Kaliempa voltava pra casa cheirando suor e estrume.
Certa tarde, o beque deu um chutão para o mato e a bexiga furou num galho de pinheiro. Dono da bola, o pequeno Kaliempa caiu no chorrradéira e foi reclamar à mãe: "Matka, furou bola! Furou bola!" Sem tirar o olho da panela, a mãe do Kaliempa gritou da janela: "Cóóre na roça e pegando um repolho pra jogar!" E ressaltou a matka de Kaliempa: "Mas pega da roxo, que este sendo mais firme!"
Era goleiro reserva do União Bigorrilho; só o velho Tchenco, técnico do time, não enxergava o talento daquele polaquinho de cabelo espetado e um raio de rápido. Numa melhor de três, valendo churrasco e cervejada, contra o Botafogo das Mercês legendário campeão do centenário de Curitiba , o titular goleiro Vanha tinha engolido dois frangos no campo do Botinha.
No jogo de volta, a torcida do Bigorrilho se embandeirou, disposta à guerra. Assim que o velho Tchenco entrou em campo, os protestos dispararam do barranco e atingiram os ouvidos do dono do time: "Tchenco, bota Kaliempa na arco! Bota Kaliempa na arco, Tchenco!"
Kaliempa entrou. Entrou e fechou o arco. Um a zero para o União Bigorrilho. Graças ao Kaliempa, que era um raio de rápido e fechou o gol. Do alto do barranco, a torcida delirava: "Cóm Kaliempa na arco, nie rato escapa!"
Kaliempa virou o maior goleiro do mundo, tornou-se lenda e a frase ainda hoje é repetida no Bar do Papadiuk, no alto do Bigorrilho: "Cóm Kaliempa na arco, nie rato escapa!"
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