Sempre fiquei maravilhado com uma casa na esquina da Rua Fernando Moreira com a Augusto Stellfeld. Não pelo fato de ser uma casa imponente, grandiosa, parecendo um forte espanhol coberto de heras, mas por algum habitante qualquer de Curitiba ter decidido morar em uma mansão na boca do lixo do Rio Ivo. Volta e meia, passando por ali, me perguntava quem tinha coragem ou poder suficiente para morar em um lugar daqueles, a um muro de distância de uma das ruas mais degradadas e perigosas do Centro da cidade.
Não foi pequena a surpresa descobrir que o habitante do tal forte espanhol era Lolo Cornelsen, um dos grandes nomes da arquitetura no Paraná, um senhor de oitenta e poucos anos, que, por mais enxuto que esteja para a idade, não intimidaria os piás que cheiram cola e fumam pedra a poucos passos do seu quarto.
Conheci o sujeito graças à minha namorada, que atualmente escreve sua biografia. Uma sexta-feira qualquer, ela precisava entrevistá-lo. Pelo telefone, disse que era para aparecer a qualquer hora em sua residência, e deu o endereço. Descendo a Augusto Stellfeld procurando o número da casa, até brinquei dizendo que ele era o tal sujeito que morava no forte espanhol da Fernando Moreira. E não é que acertei no chute!
Ele é uma figura engraçadíssima. Contou seus causos como estudante, como jogador de futebol foi campeão paranaense pelo Atlético nos anos 40 , e até como perseguido político durante a ditadura: mesmo não sendo um homem de esquerda, passou alguns meses representando o Brasil na antiga União Soviética. O suficiente para ser perseguido pelo regime.
E todo esse papo foi recheado de piadas, risos, um bom humor quase inacreditável para um curitibano que já fazia a barba na Segunda Guerra Mundial.
Apesar de ser um renomado arquiteto, autor de obras grandiosas como o Autódromo de Estoril, as más línguas de Curitiba dizem que Lolo sofre com uma maldição: suas arrojadas casas geralmente acabam sendo derrubadas para dar lugar a toda sorte de edifício de mau gosto. Um exemplo foi a mansão em frente ao colégio Sion, que deu lugar a mais um desses prédios neo-clássicos que infestam hoje a paisagem do Batel todos são iguais, e parecem com um cenário mal acabado de peça infantil. Uma daquelas coisas que só Deus o mercado imobiliário, não o barbudo da Bíblia pode explicar.
Saindo da conversa com o Lolo, me veio um pensamento bocó: se eu tivesse dinheiro, compraria a casa dele. Ela é ótima por dentro, mas não sei se teria coragem de morar. Provavelmente a deixaria ali, vazia, apenas para povoar o imaginário de quem passa de ônibus pela Fernando Moreira, perguntando quem diabos teria coragem de morar num lugar assim. Não que eu ache que a casa não esteja em boas mãos; muito pelo contrário. É só que o mercado de clínicas de estética tem crescido muito ultimamente.



