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As intensas chuvas deste início de ano não têm provocado tão-somente enchentes e deslizamentos em morros. Elas também levaram consigo as aparências de um Estado que se quer mostrar moderno, mas que na verdade é velho. Talvez o arcaísmo de parte expressiva das autoridades seja o maior desastre nacional. Maior até que o das águas. Porque as velhas práticas dos políticos permitem que tragédias evitáveis (ou que poderiam ser minoradas) se repitam com espantosa frequência a cada virada do calendário.

O Vale do Itajaí, em Santa Catarina, foi assolado pelas chuvas em 2008. Dois anos depois, foi a vez de Angra dos Reis (RJ), Pernambuco e Alagoas. Em 2011, a Serra Fluminense e o Li­­toral do Paraná sentiram a força destrutiva das águas. Nada disso parece ter servido de lição. Neste início de 2012, Minas Gerais e Rio de Janeiro vivem de novo o drama da contagem de mortos e desabrigados.

O script dos governantes tem sido quase idêntico diante dos desastres. Primeiramente, costumam demorar a aparecer. Alguns são surpreendidos em plenas férias – como se no verão não devessem estar cientes de que as chuvas virão tão certamente quanto o calor. Esse foi o caso do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, neste ano; e do governador do Rio, Sérgio Cabral, na tragédia de 2010 em Angra.

Seguindo o velho e puído roteiro, os governantes tentam apagar a má imagem. Sobrevoam as áreas afetadas – políticos adoram helicópteros. Depois, fazem uma grande reunião com assessores para discutir o assunto, como a de segunda-feira em Brasília. Prometem ajuda. Anunciam uma força-tarefa. E esperam que outros acontecimentos tirem as tragédias do noticiário.

O fato, porém, é que as ações vêm pela metade. Já com o sol brilhando no céu da pátria e longe da cobrança da opinião pública, as medidas efetivas para evitar os desastres ou remediá-los se embaraçam nas chicanas da burocracia ou nas velhas práticas fisiológicas.

Nos últimos dias, revelou-se que critérios políticos levaram Pernambuco – o estado do ministro Bezerra – a receber 90% da verba antidesastre. Descobriu-se que apenas 16% das cidades consideradas de risco máximo receberam verba para combater alagamentos e deslizamentos. Que R$ 500 milhões disponíveis no orçamento federal de 2011 para evitar novas tragédias não foram investidos. E que há desabrigados das enchentes de 2008 em Santa Catarina que ainda não ganharam uma casa nova. No Paraná, a imprensa já havia mostrado várias vezes que o Li­­toral ainda não foi completamente reconstruído.

Seria bom que as chuvas deste ano não causassem apenas destruição e desnudassem a ineficiência dos governos. Mas que também levassem para longe a inépcia estatal.

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