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É mais de meio-dia e o inverno esquentou. O tempo seco cobre o Centro de fuligem. No meu terraço, plantas e lajotas pedem água, mas só acudo as primeiras. Ao meu lado, minha filha sobe num banquinho, cuidando para não encardir o uniforme da escola no parapeito. Na ponta dos pés, ela analisa a paisagem. Novos edifícios se encaixam nas frestas uns dos outros, uma obra servindo de rejunte às vizinhas. Apreensiva, a menina balança a cabeça cheia de fivelas e me informa: “Pai, a gente vive no planeta Prédio”.

Descemos à rua, quase atrasados, faltando 20 minutos para o sinal bater. Apesar disso, na Osório, paramos para ver duas pequenas araucárias que descobrimos faz três meses, crescendo entre a vegetação rasteira. Estão com dois palmos de altura. Não sei se vão bem ou mal, mas a visão das mudas é sempre um alívio para a menina. É uma brincadeira nossa, achar que somos os guardiões daqueles pinheirinhos, tão nanicos, insignificantes em meio à floresta alta da praça.

No fundo, sei que eles têm poucas chances de sobreviver entre as barracas e os jerivás, mas, por ora, digo a minha filha que, com sorte, daqui a 20 ou 30 anos poderemos visitar aquelas árvores, e que daqui a um século elas ainda estarão lá, e durarão bem mais que os mosaicos de petit-pavé que pisamos, estes pinhões de pedra que servem de calçamento à cidade. Não, não acredito no que digo a ela, mas também não me sinto um mentiroso. É que minhas filhas me obrigam à prática de alguma esperança.

Minhas filhas me obrigam à prática de alguma esperança

Pouco depois, já voltando da escola, sozinho, encontro na Osório um grupo de calouros, sei lá de que faculdade, celebrando o resultado de um concurso vestibular. É algo cada vez mais comum por aí: não se passa uma semana sem que um estudante sujo de farinha me venha pedir uma esmola para a cerveja de seus veteranos. Estes, no caso, já estão suficientemente bêbados, e fico feliz por não precisar ajudá-los. Abraçados, improvisam entre nós uma ciranda torta, uma espécie de dança do sucesso que não chega a entusiasmar o povo nas filas de ônibus.

Um dos moços, mais elétrico, rodopia com a habilidade presumida de um dervixe. Sua alegria é tanta que parece virá-lo do avesso, expondo um lado seu que ele mesmo deve desconhecer, um interior de redemoinhos e tristezas afogadas que, lá pelo quarto rodopio, o entontecem seriamente. No décimo giro, o rapaz enfim tropeça, voa, tenta se agarrar aos companheiros, mas lhe faltam braços, mãos e dedos – e, aí, a única coisa que abunda é o chão. A felicidade é quem o empurra para trás e o faz cair, sentado, sobre uma de nossas araucárias.

O acidente é breve. Mal desaba, o moço é reerguido pelos colegas, que, rindo, se engatam de novo, cobertos de tinta, beijos e cascas de ovos, e correm para o miolo da praça, em direção ao Brasil do futuro. Nem sequer notaram o pinheirinho interrompido, este projeto de gigante esmagado por uma reles bunda humana, rotundo motor de tantas festas e desastres.

No fim da tarde, evito passar por lá com minha filha, voltando da aula. Pego um desvio, invento que preciso comprar pão. Preguiça de contar o caso à menina, dar notícia da morte da mudinha. Adio o assunto, fingirei que não sabia do acontecido, não testemunhei a tragédia, não tive culpa. Mas tive. Afinal, como guardião do pinheiro, meu dever era protegê-lo. E falhei.

À noite, as meninas já na cama, vou ao terraço espiar a Osório. Uma fenda verde-escura entre os prédios. Olho para o alto e fico à espera. Mais dia, menos dia, alguém, alguma coisa, uma bunda qualquer vai se abancar neste planeta. Bonita, redonda e engraçada, uma lua drummondiana me sorri lá do céu.

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