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Luciana Worms

A filha de Gandhi

Há poucos dias, no fim de 2012, chegou das agências internacionais a notícia de que uma jovem estudante indiana de 23 anos fora vítima de um estupro coletivo dentro de um ônibus em Nova Déli. O episódio foi o estopim para protestos em todo o país relacionados à violência sexual contra as mulheres.

Finalmente parece que a indignação resolveu se pronunciar na Índia. Ainda no ano passado, divulgaram-se cenas de outra estudante atacada por dezenas de homens – entre 20 e 40, dependendo da fonte – por mais de meia hora. No vídeo, feito por dois repórteres locais (da cidade de Guwahati, no estado de Assam), também se vê a chegada da polícia, que não efetuou qualquer prisão – apenas anunciou que "devolveria" a jovem à família. Os repórteres, por medo ou por conivência, nada fizeram durante a meia hora de violência registrada em uma movimentada rua.

A Índia foi qualificada recentemente por uma organização vinculada à fundação Thomson Reuters como o pior lugar para se nascer mulher em todo o mundo. De todos os países do G-20 (maiores economias do mundo), a Índia ocupa a primeira posição no quadro de maus-tratos às mulheres – o Brasil está no 11.º lugar. Só em 2011 foram registrados – a maioria dos casos não é notificada – 24 mil casos de estupro por todo o país. Mulher sozinha (ou acompanhada só por outras mulheres) na Índia é sinônimo de disponível. E argumentos como "mas ela estava usando minissaia!" são comuns. Um cartaz levado nas manifestações atuais em Nova Déli dizia "Querida sociedade, ensine seus filhos a não molestar em vez de ensinar suas filhas a se vestir".

A imagem positiva da Índia hoje – seja no aspecto político, por ser a nação com maior número de eleitores no mundo, seja no aspecto econômico, pela crescente industrialização – camufla a perversa realidade de uma sociedade que ainda mantém algumas tradições patriarcais. Mais de 2 milhões de indianas morrem a cada ano. Cerca de 12% ao nascer, 25% na infância, 18% em idade reprodutiva e 45% já adultas. Não é raro o aborto de fetos femininos. O censo realizado em 2011 mostrou que o país tinha 914 meninas com menos de 6 anos para cada mil meninos. Ser mulher no país é uma "desgraça" que muitas mães não querem para sua filha.

Acuado, o governo do primeiro-ministro Manmohan Singh anunciou que divulgará fotos e endereços dos condenados por violência sexual no país. Contudo, muitos veem a medida apenas como mais uma forma de abafar a institucionalização desse tipo de violência e tentar conter os protestos. A violência sexual é vista como banal. Nas últimas eleições regionais, 27 candidatos eram acusados de estupro.

Entre 1966 e 1977 e entre 1980 e 1984, a filha de Jawaharlal Nehru (primeiro premiê da Índia independente do domínio britânico), Indira Gandhi, foi a chefe de governo do país. Apesar de atitudes consideradas antidemocráticas – como a declaração de estado de sítio, em 1975, e a perseguição a oposicionistas que questionaram a legitimidade da continuação do seu governo –, foi considerada uma das pessoas mais admiradas do mundo na época.

Indira faz parte das poucas chefes de governo da história do século 20. Foi assassinada por um extremista religioso sikh, em 1984. Quando assumiu o poder, nos anos 60, parecia que abriria uma porta para que a Índia se libertasse do patriarcalismo. Aparentemente essa libertação ainda está longe de ser conseguida. A sociedade precisa continuar exigindo uma mudança de comportamento e um olhar especial do governo.

Em canção de 1992, Gilberto Gil já alertava: "basta ver que um povo derruba um czar / derruba de novo quem pôs no lugar". O contexto na época era o fim da União Soviética, mas as recentes "primaveras" também têm mostrado que dizer não ao povo pode ser fatal. Seja lá qual for a bandeira.

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Luciana Worms é advogada, radialista, professora e autora de Brasil século XX – Ao pé da letra da canção popular, vencedor do Prêmio Jabuti

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