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Marleth Silva

Manifestantes ousaram atrapalhar o trânsito de São Paulo por causa de 20 centavos

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Eu, você, todo mundo já ouviu críticas ao espírito resignado do brasileiro, que não vai às ruas protestar contra os descalabros, contra os políticos, contra os absurdos que assolam o país. Essa seria uma característica antiga do povo brasileiro, que não reagiu a Portugal, que fez a República sem batalhas etc. etc. Não é assim. Isso é o que os portugueses de antanho queriam nos fazer crer. A história do Brasil é repleta de revoltas e de manifestações, todas elas duramente sufocadas. Vem do período colonial, atravessou o Império e persiste na República a estratégia dos governantes de pesar a mão contra os revoltosos para fazê-los calar.

Pois bem, a geração que é classificada pejorativamente de despolitizada/desinteressada/alienada/virtual/individualista vai às ruas das cidades que se julgam as mais modernas do país. Gritam por algo que, de forma alguma, pode ser considerado um pedido individualista, interesseiro. Pedem a redução da tarifa do transporte coletivo.

No meio das manifestações, há vandalismo e o trânsito é prejudicado. O trânsito, um dos deuses poderosos que nossa civilização criou. O trânsito, que tem de ter prioridade, o trânsito, que tem o poder de comandar nosso humor. O trânsito, que nos impede de passar mais tempo vivendo a vida. O trânsito, que não pode enfrentar obstáculos porque ele se vinga prendendo-nos no asfalto. Ainda pior, o trânsito de São Paulo, da sacrossanta Avenida Paulista, da cidade que não pode parar.

Os manifestantes ousaram atrapalhar o trânsito de São Paulo por causa de 20 centavos.

A repercussão das manifestações paulistanas seguia na toada tola da condenação ao vandalismo, aos prejuízos à cidade, até que o governo e a polícia de São Paulo fizeram o favor aos manifestantes de pesar na mão. Em vez de encontrar alguma forma de expressar boa vontade para discutir a reivindicação, o governo optou por apenas reprimir os excessos. Sendo que por "excesso" foi entendida a existência do protesto em si.

Querendo controlar o fogo, o governo paulista colocou lenha na fogueira e ensopou tudo com bastante álcool.

Será que não leram nos jornais sobre a Praça Taksim, em Istambul? Os turcos foram às ruas para protestar contra a construção de um shopping center naquela que é sua maior praça, um ponto de referência na cidade, sempre cheia de gente. Estive lá no ano passado e fiquei com inveja dos turcos que, sábado à noite, se espalham pela praça e ruas vizinhas para conversar e fazer compras, desfrutando a área central de Istambul de uma forma que há muito tempo não se vê nas grandes cidades brasileiras.

A dificuldade do presidente turco para abrir um canal de comunicação com os manifestantes tornou o problema crônico. Já são duas semanas de protestos na praça (neste sábado eles vão decidir se permanecem lá ou se estão satisfeitos com a proposta do governo de levar o assunto para a Justiça e, se necessário, para um referendo público).

Retomando o que escrevi lá no início deste texto, não gosto nada da ideia de termos de agir violentamente para protestar contra o governo. A história do Brasil mostra que todas as revoltas violentas fizeram mortos, principalmente entre os mais humildes. Da Revolta dos Malês à resistência à ditadura militar pós-64, vidas foram destroçadas por causa da repressão. Prefiro a via da negociação.

Negociar com multidões não é fácil. Até porque os novos movimentos têm evitado nomear representantes, provavelmente para evitar a politização. Mesmo assim, é obrigação do governo ir até eles e tentar conversar tantas vezes quanto forem necessárias. Políticos se metem entre o povo na hora de pedir votos, não é? Mas evitam o povo na hora em que ele resolve falar.

Quanto mais surdas as autoridades forem, mais essas manifestações vão crescer.

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