Até pouco tempo atrás, quando alguém comentava sobre um conhecido que estava com depressão e eu notava surpresa ou crítica no tom de voz, dizia:
Depressão é a doença que todo mundo já teve, tem ou terá.
Dizia isso em tom casual, mas minha intenção era provocar a dúvida, dizer que ninguém está livre desta doença. Portanto, deixemos qualquer resquício de julgamento de lado quando formos falar de alguém que está doente (fico muito irritada com essa história de culpar o doente pela doença; parece até que controlamos cada molécula do nosso corpo!).
Para falar a verdade, não estou convencida de que todo mundo terá depressão. Parece que tem gente que passa por este mundo sem conhecer a doença. Mas muita gente a conhece disso não tenho dúvida. Não me espanto com nenhuma notícia que me chega relacionada à depressão. A pessoa é bem-humorada e brincalhona? Equilibrada e autoconfiante? Jovem e cercada de oportunidades? E daí? Estamos falando de um problema químico no cérebro. Nosso corpo é complexo e mais complexa ainda é nossa cabeça. Uma faísca aqui e o curto-circuito pode acontecer lá na outra ponta. Ou não. Depende da sorte do freguês.
Temos a impressão de que a doença virou uma praga, uma epidemia. Seja na família, no ambiente de trabalho ou no círculo de amizades, todo mundo conhece alguém com depressão. Parece que é um mal do nosso tempo. Será? Os serviços de saúde devem ter registros que mostram se a ocorrência da doença aumentou ou não. Acho que deve ter um certo exagero ou ingenuidade da nossa parte, que tendemos a ver o que acontece durante a nossa vida como fenômeno único na história do universo. A depressão maltrata o ser humano há muito tempo. Todos aqueles relatos de pessoas endemoninhadas na Antiguidade, que precisavam de exorcismo ou de sacrifícios aos deuses para acalmarem sua melancolia ou sua fúria, não parecem familiares? Depois de Freud, os demônios quase desapareceram dando lugar a histéricos, neuróticos e outras denominações, que foram mudando ao longo dos anos.
Tem quem diga que há excessos nos diagnósticos de depressão. Que pessoas que estão apenas tristes são medicadas desnecessariamente. Pode ser. Mas o que me interessa são os que sofrem de verdade por causa de um estado de espírito que toma conta deles sem que possam controlar. Winston Churchill, que teve uma vida brilhante, descreveu sua doença como o "Cão Negro". O Cão Negro rondava Churchill e ele não conseguiu afastá-lo. Há uma frase chocante do primeiro-ministro britânico que enfrentou Hitler em que ele fala de suicídio: "Eu não gosto de parar perto de uma plataforma quando o trem vai passar. Eu gosto de ficar bem no fundo da plataforma, de preferência, com um pilar entre o trem e eu. Não gosto de olhar para a água quando estou em um navio. Um gesto de um segundo pode acabar com tudo. Um toque de desespero é o suficiente". Digo que a frase é chocante por duas razões: porque nos faz imaginar o sofrimento secreto de Churchill quando o Cão Negro estava com ele; e porque a vida dele foi incrível, foi útil para a humanidade, foi rica e mesmo assim, às vezes ele se sentia infinitamente triste e tinha vontade de acabar com a própria existência.
Há dois anos, uma ONG britânica que atende portadores de distúrbios mentais mandou fazer uma estátua que representa o primeiro-ministro em uma camisa-de-força. Foi um escândalo, é claro. Mas a intenção era boa: lembrar que Churchill era, sim, portador de uma doença mental e que a superou porque nunca fingiu que ela não existia, porque não ficou desassistido. Não se jogou na frente de um trem nem pulou do alto de um navio. Seu último discurso como chefe de governo foi intitulado "Jamais desesperar". Ele deu nome ao monstro, foi mordido por ele várias vezes, mas sobreviveu.
Marleth Silva é jornalista.



