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Marleth Silva

Os náufragos da Saldanha Marinho

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A chuva de quinta-feira à noite me colocou na ca­­tegoria de vítima de aci­­dentes naturais. No meu caso, o acidente natural foi a combinação entre a chuva torrencial e a topografia de Curitiba, que cria umas baixadas que nunca notamos até o dia em que nosso automóvel sai boiando na água acumulada sobre a via pú­­blica. Sou uma vítima que não pode se queixar: na mesma noite, teve gente que perdeu a casa. Eu vivi uma experiência pitoresca ou traumática, dependendo do ponto de vista. Só isso.

Foi um susto perceber que aqui­­lo estava acontecendo comigo. Eu e meus dois filhos, voltando às pressas para casa para fe­­char uma janela deixada aberta, fomos interrompidos pelo lago que se formou em um cruzamento. Os automóveis não ousavam passar. Nós viramos à direita e rodamos mais uma quadra na, agora assustadora para mim, Rua Saldanha Marinho.

Uma linda via, diga-se de passagem, especialmente na­­quela quadra próxima à Pra­­ça Espanha que, segundo relato dos moradores, alaga sempre que a chuva é pesada. Foi ali que percebi que não dava para ir em frente e decidi subir na calçada. Até subi, mas a água também subiu. Automó­­veis balançavam mais à frente, abandonados no meio da rua, como naquelas cenas de filmes sobre o fim do mundo ou guerras nucleares.

O meu automóvel também co­­meçou a balançar e percebi que estava girando. Os meninos gritaram que a água estava en­­trando e se de­­sesperaram. Lem­­brei do caso daquele senhor que morreu dentro de um carro, em uma rua alagada de Belo Hori­­zonte, ano passado –me recordo de ter acha­­do que aquela era uma forma absurda de se morrer. A porta do meu lado travou. Mandei os meninos sairem por trás (a frente do carro estava afundando) e eles me ajudaram a sair. Fomos em busca de um lugar mais alto, o que encontramos a poucos me­­tros – a enxurrada nos pegou no ponto mais baixo da rua e logo ali em frente a via voltava a se elevar.

Fomos ajudados por moradores da Saldanha, simpáticos e co­­rajosos moradores da Salda­­nha, que resistem às chuvas sa­­zonais com uma galhardia im­­pressio­­nan­­te. Para desabafar, alguns re­­clamam da administração municipal – o que é pouco, diante dos estragos absurdos e dos apartamentos alagados. Entrei em um desses imóveis. Lá estava um casal secando o chão. Duas pessoas que têm estabelecimentos comerciais naquela qua­­dra apareceram depois que a água baixou, desconfiados de que a chuva teria fei­­to estragos. Ambos me perguntaram (eu estava parada na rua, esperando o guin­­cho) se tinha havido inundação. Respondi que sim e os dois foram embora, di­­zen­­do que era tarde demais para fazer alguma coisa.

Esse povo da Saldanha tem sangue frio. E são gentis. Um co­­merciante abriu a porta para nos livrarmos da chuva e usarmos o telefone. Deixamos suas toalhas de banho ensopadas e o chão molhado. O me­­nino Lucca foi atrás de meus fi­­lhos e os chamou para entrar – Lucca, voltaremos para devolver suas roupas. Priscila e seu pai, o sr. Odair, me deram abrigo enquanto aguardava o guincho (1h30 de espera) e o táxi (mais 40 minutos) – Priscila, assim que possível, vou aí pegar minha árvore de Natal recém adquirida, que você ajudou a resgatar do porta-malas.

Era uma da manhã quando che­­guei em casa para fechar a maldita janela que estava aberta. Des­­cobri que por ela não entrou uma só gota de água. Mas entrou uma enxurrada por baixo da porta e inundou uma parte da casa. Para mim também era tarde demais pa­­ra fazer alguma coisa. Fui ver meus filhos, para quem terminar a noite acomodados em camas improvisadas na sala de avó, vendo tevê até depois da meia-noite, foi suficiente para resgatar o bom humor.

Também manteve o bom humor o vizinho que foi despertado para abrir um portão, já que meu controle remoto, assim co­­mo o celular, molhou e não funciona. Não só não reclamou do incômodo como agora está em­­penhado em achar uma forma de evitar alagamentos na minha casa. Também não perdeu o bom humor meu irmão, que foi me fazer companhia lá na Saldanha. Em resumo, não tenho do que me queixar.

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