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Miguel Sanches Neto

Livros indesejados

Quando Borges começou a ser constantemente convidado para júri de prêmios literários, no finalzinho dos anos 50, seu apartamento no edifício da rua Maipú, número 994, em Buenos Aires, era o destino de uma grande quantidade de livros, de autores que queriam não apenas a leitura amistosa mas também a distinção de um voto. A maioria não conseguiu o voto e muito menos o prêmio, mas muitos receberam algo que hoje tem um valor maior – a aprovação de Borges.

O apartamento do escritor, onde ele vivia com sua mãe, dona Leonor Acevedo de Borges, era uma peça mui modesta, que impressionava os amigos cientes da grandeza de quem o habitava. O único dormitório fora dividido por um tabique, para abrigar Borges e seus livros anglo-saxões. Mario Vargas Llosa, descrevendo o quarto, lembra que ele parecia uma cela e seu habitante, uma criança, por conta da cama frágil que ele ocupava neste quarto improvisado ao lado do de sua mãe.

Na sala, dona Leonor lia para o filho, já com sérios problemas de visão, e ele lhe ditava seus textos, cada vez mais curtos, mais essenciais, mais memoráveis, pois o escritor agora os elaborava mentalmente na íntegra antes de ditá-los.

Com todas essas dificuldades, Borges devia dar um retorno à produção de seus contemporâneos, que lhe chegava sempre em maior número, na mesma proporção em que seu nome crescia nos meios literários. Comentou isso com Adolfo Bioy Casares, seu grande interlocutor, ouvindo o comentário do amigo:

– Se respondêssemos a quem nos manda cartas ou livros, não sobraria tempo para escrever.

Para Borges, isso era ainda mais complicado, pois seu processo de escrita apresentava as dificuldades próprias da cegueira, consumindo muito tempo. E ele ainda lecionava na universidade, além de dirigir a Biblioteca Nacional.

Quando recebemos livros de nossos contemporâneos, somos impelidos a eles por vários motivos. Porque gostamos do amigo. Porque ele nos cobra uma leitura. Porque o assunto trata de algo do momento. Porque devemos um favor a ele. Porque queremos ser admirados por nossa preocupação com o outro. Muita coisa entra na decisão de dedicar algumas horas a uma obra que não solicitamos e depois mais alguns minutos a uma carta-resposta-elogio. Mas algo mais forte vai fazendo com que os livros recebidos descansem em nossa mesa. Gostamos sim de ler, mas é um mito isso de ler tudo, até as bulas de remédio. Temos projetos pessoais de leitura, e buscamos em livrarias, sebos e bibliotecas os livros de que precisamos no momento; é a eles que dedicamos nosso tempo.

Resultado: os livros recebidos permanecem à margem de nossa vida, embora em muitos casos façamos planos de dar conta deles, planos de difícil concretização.

Como dona Leonor era uma senhora extremamente educada, exigia que Borges respondesse a todos os autores que lhe enviavam presentes impressos. Filho atencioso, ele lhe prometia que, com certeza faria isso, mas na biblioteca, nos intervalos do trabalho. A mãe devia se orgulhar do filho que, apesar das limitações de vista e de tempo, empenhava-se em dar respostas a quem o procurava.

E o escritor saía de manhã para o trabalho com os livros recebidos no dia anterior. Pelo caminho, ele os jogava fora ou os esquecia em lugares por onde passava, com a inocência de uma criança que vai se livrando daquilo que atrapalha a jornada.

Borges deve ter sido odiado por um grupo de autores, que o julgava silencioso demais sobre a produção do momento. Imagino a surpresa de algum dos remetentes que encontrasse o livro dedicado ao grande contista num sebo da cidade, amargando a ingratidão daquele que fora destinatário de um gesto generoso. Mas foi assim, fechando-se para o outro, que Borges pode construir sua obra.

Mas ele também conseguiu construir o nome, o que é importante para quem precisa sobreviver da literatura. E sua mãe contribuiu para isso.

Depois de algum tempo sendo enganada, ela descobriu as artes de seu menino e tomou a decisão correta. Se o filho não tinha tempo nem paciência para ler esta produção, e se havia a necessidade urbana de agradecer a essas pessoas, ela faria tal sacrifício.

Dona Leonor passou a escrever longas cartas de agradecimento em nome do filho – e não se estranhava a letra, pois todos sabiam que Borges não podia mais escrever de próprio punho. Ele apenas assinaria as cartas, essa a condição que impôs.

Aceitava a solução diplomática, mas se recusava sequer a saber o que a mãe dizia, o que ela elogiava naquele escritor. Ele apenas firmava a folha, desconhecendo completamente as altas qualidades que ele destacava no livro de fulano ou de beltrano. A mãe concordou com o método do missivista, salvando-o de rancores terríveis.

Fico imaginando quantas frases apócrifas de Borges foram reproduzidas nos próximos livros desses remetentes, quanta beleza ele encontrou na literatura de seus contemporâneos, e também as conversas que ele travou ao encontrar esses autores. Devia manter certa humildade silenciosa diante do efusivo interlocutor. O que era fortalecido por seu olhar de cego.

A fraude tem desdobramentos mais complexos. Muitas das cartas de Borges que se encontram em arquivos sérios, de grandes universidades ou de institutos de literatura, podem ser falsas. Opiniões hoje creditadas a ele talvez não passem de palavras convencionais de agradecimento, escritas por sua mãe. Sua própria obra, talvez, tenha sofrido desvios na hora em que ele a ditava.

Mas tudo isso agora pertence ao legado de Jorge Luis Borges, e está em sintonia com o seu estilo.

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