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Melhores Poemas, de Ruy Espinheira Filho. Organização de Sérgio Martagão Gesteira. Global, 296 págs. R$ 35. Poesia.

A julgar por autores e obras com destaque, o que a contemporaneidade entende por poesia não passa daquilo que o crítico italiano Alfonso Berardinelli definiu como o kitsch do moderno, um conjunto desconectado de palavras, caracterizado por uma forma vazia e intercambiável. Para este intelectual, a poesia hegemônica no Ocidente é a que nega o autor, a que se despersonaliza ao extremo, numa reprodução constante de si mesma. Tratando não só da poesia, mas da literatura como um todo, Isaac Bashevis Singer lembrava em suas memórias (Amor e Exílio) que "todas as inovações de linguagem em breve se tornam clichês". Avesso a esse processo, alguns poetas produzem uma obra vinculada à própria circunstância.

Pertencendo a este grupo, o baiano Ruy Espinheira Filho tem agora publicada uma antologia (Melhores Poemas. Global, 2011) em que o leitor poderá acompanhar a trajetória de um dos mais importantes poetas líricos brasileiros da modernidade. É uma poesia com dimensão biográfica e histórica, contrária à ideia de que o universo poético deve ser uma realidade paralela, onde flutuam linguagens marcadas pelo vácuo semântico. Não existe linguagem sem o ser humano. E o ser humano enquanto linguagem é o que se chama de literatura.

Desde o início de sua vida editorial, em 1973, Ruy Espinheira se destaca como uma voz à parte, praticando a poesia contra a passagem do tempo. Ao poeta cabe uma atividade das mais difíceis, que é transformar os vazios existenciais em obra de arte, em uma tentativa de plenitude. Perdemos pessoas, paisagens, feições e por fim perdemos a nós mesmos, e é com estas perdas que ele erige o poema: "Mais pleno é o perdido, pois o resto/ ainda não se cumpriu" (p.98). É no passado que ele encontra o tempo inteiro, conquistando uma ampla compreensão emocional. No presente, tudo é incompleto. E o futuro, mera ficção.

Habitam esta poesia os parentes, os amigos, as mulheres, os livros, as paisagens, ou seja, todo o contexto afetivo do poeta. Mas a figura central para Ruy Espinheira é o pai, de quem ele herda mais do que o nome, recebendo também uma visão generosa do mundo. Eis a fonte imorredoura de afeto. E embora haja belos tributos às paixões, a sua poesia é amorosa num sentido muito mais amplo, que inclui todas as coisas mudáveis do mundo. Há vários poemas falando de amigos, outros que lhe são dedicados, o que faz de sua poesia uma das mais belas celebrações da amizade em nossa língua.

Uma obra com tal função não pode optar pelo verbo agressivo, pelas dissonâncias, pelas inovações (que querem tornar o anterior obsoleto). O seu verbo é calmo, forjando uma voz melancólica mas estranhamente pacificadora, que nos leva a viver o perdido, a sofrer com ele, mas também a participar de sua redenção. Assim se cumpre a essência do literário, sem a qual ele perde todo o sentido, que é nos unir a uma trajetória, criando laços com outros seres; no caso da poesia, com o próprio poeta, com um eu que não se afasta daquilo que se afastou dele:

"Isto o que ganhei: essas perdas. Isto o que ficou: esse tesouro de ausências" (p.111).

Este tesouro nos forma e nos conforma diante do nosso próprio fim. Pela poesia, participamos de uma experiência individualizada, a do poeta, e também de uma genérica, a da natureza humana. É nesse sentido que a poesia é sempre verbo encarnado. Verbo que se faz gente. E não uma linguagem funcionando sozinha.

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