Na mesa, os livros recém-chegados pelo correio, o computador com o monitor sobre um dicionário, para dar a altura exata, muitos lápis, cadernos, blocos, uma agenda, alguns CDs de música clássica. São os instrumentos do escritor, com os quais ele se fixa ao mundo.
São poucos os móveis. A impressora descansa sobre o gaveteiro ao lado da escrivaninha. Um arquivo onde ele guarda textos, contratos, recortes de jornais etc. Uma pequena estante de aço para os livros que ele pretende ler em breve. Um velho sofá de dois lugares. Nesta primeira parte do escritório, ele passa as horas de escrita. Há ainda outro cômodo, do mesmo tamanho, para os livros e para a leitura, sem computador mas com uma poltrona de couro marrom e um abajur.
O escritor sentou-se na frente do computador e o ligou. O barulho de hélices, o monitor emitindo sinais de vida. Começava o dia. Ele ficou olhando as instruções de comando da máquina, depois as imagens e logo o processo de ligamento estava finalizado. Na tela, um ícone mostrava onde devia clicar para abrir o redator de texto. Não conhecia muitos programas, mas este lhe era familiar.
Quinze anos atrás, depois de duas décadas usando uma máquina de escrever portátil, que hoje dorme sobre o arquivo de aço, ele conseguiu comprar o primeiro computador, um modelo contrabandeado. O vendedor entregou o objeto numa tarde, em outra casa, uma das muitas em que morara. O computador foi posto sobre a escrivaninha; os cabos, ligados. Ansioso para começar a escrever, ele se decepcionaria com a informação do vendedor devia antes obter os programas. Ligou o computador mesmo assim e apareceu sua tela negra. A vontade de escrever naquele novo suporte era tão grande que ele não admitia a idéia de esperar o dia seguinte. Digitou um poema na tela escura, as letras se iluminavam como estrelas distantes. Ficou olhando aquele poema, que agora era eletricidade, dispensando grafite e tinta. O poema existia e não existia. Depois de alguns minutos, desligou o computador e se deitou no sofá-cama do quarto-escritório, olhando a máquina estrangeira.
Hoje, o computador não destoava de seu mundo, eles haviam estabelecido uma relação de amizade e, em boa parte, este equipamento era o responsável por sua pequena carreira literária. Sem a facilidade das palavras armazenadas eletronicamente, ele talvez continuasse sendo o autor de uns raros poemas, sem coragem de enfrentar a escrita de um romance.
O computador funcionava diante dele, mas não havia a menor vontade de escrever. Estava paralisado pela falta de sentido de tudo. Para que continuar este trabalho se o mundo tinha sido feito para o esquecimento? Era lunar a luz da tela do computador.
Então se lembrou dos poemas de Li Tai Po que, na sua juventude, ele havia traduzido do chinês. Alguns dos poemas falavam da lua e ele se recordava vagamente do conteúdo. Tinham sido publicados em uma revista jovem, que devia estar guardada entre seus papéis, não seria muito difícil localizá-la.
Não sabia nada do idioma chinês, mas conhecera um tradutor de Beijing que viera para cá com o desejo de melhorar o domínio do idioma e ele achou que poderiam traduzir juntos uma coletânea de Li Tai Po. O escritor pesquisou a vida e a obra de Li Po; o tradutor emprestou livros de um conterrâneo; e se reuniam na biblioteca da universidade uma tarde por semana. Faziam uma tradução literal de um poema, o escritor tentava dar uma forma poética ao enredo e, no encontro seguinte, levava o texto recriado, lido minuciosamente pelo tradutor. Em casa, na época um apartamento de bairro, não havia propriamente um escritório. O escritor encontrara no lixo do prédio um pé de mesa enferrujado e teve a idéia de tirar a porta do quarto para usá-la como tampo. Ele não possuía habilidades manuais, por isso nem parafusou a porta ao suporte. Sobre a mesa, instalou os livros e a máquina de escrever portátil. Numa das paredes, ficava a estante de aço desmontável, tão adequada para sua vida de nômade. Mesmo quando construiu essa casa de agora, continuou usando as estantes de aço, numa ameaça de que, a qualquer momento, poderia novamente mudar-se.
Nesta mesa improvisada, ele datilografou várias vezes os poemas chineses. Ao menor erro, obrigava-se a datilografar tudo, e cada nova cópia era oportunidade de melhorar o texto. Não sabe quantas vezes reescreveu aquelas traduções. Eis o grande prejuízo do computador: tinha desaprendido a reescrever, agora fazia apenas ajustes, perdera o convívio com a palavra.
Levantou-se, ainda não abrira o redator de texto, e foi procurar no arquivo de aço a revista onde saíram os poemas de Li Po. Achou com certa facilidade, foi ao sofá e se sentou para ler. Fazia muitos anos que não voltava àqueles textos e, ao abrir a revista, sentiu o cheiro de papel úmido, como se tivesse entrando naquele minúsculo apartamento que ficara fechado todo este tempo.
Leu os poemas com vagar. O mais longo deles era um tributo à lua. Viver a estranha vida antes que ela se esvaísse. O poema explicava de forma precisa o que ele sentia: era um homem de agora que se confrontava com uma velha testemunha da existência humana na terra a lua, mesma e outra. O poema também se tornara uma lua que reaparecia depois de tantos anos. Que deixava uma outra língua e um outro tempo para brilhar, presente e ausente, agora. Esta duplicidade tinha efeitos perturbadores. Tudo estava presente e ausente ao mesmo tempo. O poema havia sido esquecido, mas ao reencontrar-se com ele, naquela madrugada, o escritor vivera tudo de novo.
Não haveria então diferença entre o texto e a vida, ler e existir. Tudo ficção. Então, dedicar-se à literatura era a única coisa sensata que se podia fazer num mundo que nos é diariamente mentido.
Quando ele olhou pelas vidraças altas do escritório, viu que o dia estava nascendo, embora no poema a lua continuasse brilhando.



