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Nostalgia

Boca Maldita, morreu seu padrinho!

Grevistas dos Correios fizeram passeata pelo centro de Curitiba | Hedeson Alves/Gazeta do Povo
Grevistas dos Correios fizeram passeata pelo centro de Curitiba (Foto: Hedeson Alves/Gazeta do Povo)

Na semana que passou, Curitiba perdeu uma de suas grandes personalidades, o engenheiro Abrão Fuks – também professor, narrador de fatos citadinos e possuidor de um bom humor contagiante. Tais predicados a gente até pode encontrar em outras pessoas. Mas o Abrão teve um mérito especial para a cidade, foi ele quem batizou o ponto mais conhecido do centro como a Boca Maldita, a Avenida Luiz Xavier, nome este que não tem nada a ver com o clube de serviços com o mesmo nome.

Para maiores esclarecimentos, publicamos alguns trechos da entrevista do advogado Luiz Fernando Maria Sobrinho para a coluna Tablóide, em 1978. Vamos a ela: "Tenho o ensejo de, como filho dessa Curitiba, onde vivi plenamente todos os meus dias de infância e juventude, esclarecer fatos que se relacionam ao aparecimento da Boca cuja paternidade é atribuída a tantos e por outros invocada..."

"Na década de 1950/60 viveu em nossa cidade o paraense Paulo de Lima Pinto, ex-funcionário da Panair do Brasil e lírico boêmio, cultor de gíria notável – quando a linguagem era novidade... Partilhamos eu, Raul Mazza do Nascimento, Sebastião de Mello, Gelson Costa e Juarez de Oliveira, do cotidiano alegre com o Paulinho, até o dia de sua morte."

"Nossos encontros, à época, davam-se na esquina da Travessa Oliveira Belo e Avenida Luiz Xavier, em frente à Casa Combate, instalada no Palácio Avenida. Com o passar do tempo, outros amigos (Francisco Botelho Neia, Mozart de Ferrant Bittencourt, Milton Novaes Cruz, Jose Eugenio Alcântara de Aguiar, José Caldeira e Odilon Reignart) tornaram-se freqüentadores do ponto, engrossando-o".

"Tornou-se usual, entre nós, a adoção do termo boca para identificar a esquina. Isto porque o Paulinho – como o chamávamos – sempre dizia: vamos marcar um apontamento para amanhã na boca. À noite, somava-se aos amigos da boca, duas dezenas de outros: Newton Bittencourt, Julio Gomel, o Lund, Manoel Francisco Beltrão, Ivo Hauer, Oscar Murilo Gomes, Oscar Withers, Abrão Fuks, Ascânio Miro Medeiros, O Arnon e o Wilson Méier de Assis, Osíres de Brito, o Ivan e o Iamar Xavier Viana, Renato Perrone (o Filhote...), Cyro e Pedro Maria Sobrinho, mais o folclórico Nariguete e às vezes surgia o Esmaga."

"Certa noite, o Abrão Fuks, referindo-se a boca, largou esta: ‘Vocês só pensam na boca. Nessa Boca Maldita...’ Daí em diante a esquina ficou conhecida como Boca Maldita..."

Questão de três anos passados, conversando com o Abrão Fuks – com o qual privamos de boa amizade, sempre escutando suas histórias deliciosas –, nos informou ele que o termo exato que usou na época havia sido: "Boca Maldita e Fedorenta!". A qualificação de "fedorenta" ficava por conta do mau cheiro exalado dos bueiros locais, odor vindo através do esgoto que o Rio do Ivo transportava pelo subsolo local.

A Nostalgia deste domingo é dedicada a este vulto emérito, o engenheiro, professor e grande amigo Abrão Fuks, que partiu ao encontro de tantos outros freqüentadores da Boca Maldita e que já estão "do lado de lá".

Mostramos nas fotografias de hoje, em primeiro lugar, o local onde se encontrava a turma precursora da Boca Maldita, a esquina da Avenida Luiz Xavier com a Travessa Oliveira Belo, em imagem gravada no ano de 1944, bem antes de ter o batismo do Abrão.

Na segunda foto, temos uma visão geral da Avenida Luiz Xavier em 1931, quando então já tinha sido renomeada como João Pessoa. A terceira imagem mostra uma visão noturna da Luiz Xavier em 1966, quando ainda possuía o esplendor dos cinemas e outros atrativos, que desapareceram deixando saudades em quem os conheceu.

Na quarta foto, temos a imagem de dois eméritos freqüentadores da Boca Maldita sentados em um de seus bancos. Vemos o velho jornalista João Baptista de Morais (de braços cruzados) escutando um daqueles papos gostosos do Abrão Fuks, o padrinho da Boca Maldita. Ambos partiram deixando saudades! Fechamos a homenagem mostrando o Abrão caminhando pela Boca, na quinta foto, num domingo ensolarado, como sempre gostava de fazer.

N.R.: Para os apreciadores de fotografias antigas, existe uma exposição no Bar do Maneco, na Alameda Cabral. Visite, você vai gostar.

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