"As agências realmente pedem que as modelos emagreçam mais e mais. Eu sempre soube de casos pesadíssimos de anorexia e muitas podem chegar a esse ponto da Ana Carolina [Reston Macan, modelo paulista morta na terça-feira passada em decorrência da anorexia]." A frase é de um paranaense que conhece as entranhas do mundo fashion, o produtor de moda e caça-talentos Victor Sálvaro, que ostenta no seu currículo de "olheiro" tops como Isabeli Fontana, Marcelle Bittar, Michele Alves e Juliana Imai. E vai além: "Esses foram os casos noticiados, porque devem ter mortes que a gente nem fica sabendo."
Ele lembra porém que esses casos ocorrem quase sempre com as modelos em início de carreira, que ainda estão em busca de um lugar ao sol. "Isso não acontece com essas meninas que já estão no mercado, até porque quando elas entraram a realidade era outra", destaca. E explica: "Na minha época, há 8, 10 anos, havia todo um trabalho com a família, as mães acompanhavam as meninas, a própria agência dava suporte, e elas começavam a trabalhar mais preparadas".
Segundo Sálvaro, o fascínio despertado pelo "sonho dourado" de ser modelo terminou por desvalorizar a atividade o que estaria na raiz dos casos de anorexia. "Agora as agências fazem esses concursos no Brasil inteiro, recebem levas e levas de meninas, muitas vezes do interior e de família humilde, que aos 13, 14 anos vão morar sozinhas com outras modelos em São Paulo", descreve.
Ele defende um comprometimento maior das agências com as modelos. "Falta uma assessoria da própria agência, para preparar essa menina que chega do interior, ensiná-la a ter postura, a produzir-se, porque elas chegam e vão encarar um teste sem a menor condição", revela. "E o que elas vão fazer? Na ânsia de conseguir trabalho, deixam de comer, ficam fracas, e as próprias agências acabam mandando embora."
Sem falar que muitas vezes a própria família acaba pressionando para que a menina emagreça para conseguir trabalho. "As agências de São Paulo têm muita lábia, os pais acham que a menina vai ficar milionária, aí cresce o olho da família, e eles acabam soltando as filhas em São Paulo", conta. "É um mundo bem hipócrita, bem triste."
O curioso é que as modelos mais bem-sucedidas, com a carreira consolidada, não passam fome. "As pessoas acham que ela passa à base de uma folha de alface, mas a minha filha come exatamente o que qualquer mortal come e sempre foi assim", diz Eliane Bittar, mãe da top paranaense Marcelle Bittar. "De manhã, uma xícara de café com leite, pão com margarina e queijo e eventualmente uma fruta; no almoço, arroz, feijão, bife ou qualquer comida normal; à tarde, mais um pãozinho com café com leite e à noite ela gosta de comer uma massa." Marcelle tem 56 quilos muito bem distribuídos em 1,79 metro.
Eliane, que convive de perto com outras modelos de ponta, como Isabeli Fontana, Caroline Bittencourt, Isabel Goulart, Giane Albertoni e Caroline Trentini, garante que todas são saudáveis e comem muito bem. "Às vezes a gente até brinca que elas parecem umas dragas", arremata.



