
Começa amanhã um novo ciclo do transporte coletivo curitibano. Pela primeira vez, as operadoras do sistema deverão cumprir metas e regras estipuladas por um contrato assinado a partir de um processo de licitação. Mas os usuários não devem enxergar mudanças significativas no sistema já neste domingo. Pelo menos por enquanto não há previsão de reajuste no valor da passagem, que continua em R$ 2,20. Já a frota deve ser renovada aos poucos. "A princípio não muda nada. É muito mais uma organização operacional nossa. Envolve uma série de coisas que vão acontecer gradualmente", explica o presidente da Urbanização de Curitiba (Urbs), Marcos Isfer.Embora aconteça com 22 anos de atraso já que licitações para o transporte público são uma determinação constitucional desde 1988 , a concessão do serviço é apontada por especialistas como um grande avanço. "Por muito tempo isso foi empurrado com a barriga. Estamos simplesmente cumprindo a legislação", afirma o professor do curso de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Ricardo Bertin. "Agora passam a existir obrigações, principalmente com relação aos operadores. Não renova tanto, mas formaliza uma relação e isso é positivo para a população", avalia o professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Paraná e consultor em logística Garrone Reck.Na prática, o sistema continuará a ser operado por praticamente as mesmas empresas que já atuavam em Curitiba. Elas se uniram em três consórcios (Pontual, Transbus e Pioneiro), os únicos que disputaram e venceram os três lotes da licitação. A concorrência concedeu às empresas o direito de explorar 302 linhas de ônibus da capital pelos próximos 15 anos (prazo que pode ser aumentado em dez anos), o que, estima-se, deve movimentar quase R$ 8,6 bilhões de faturamento. A gestão e o valor das tarifas continuam sob responsabilidade da Urbs, que também passa a ter a função de fiscalizar o cumprirento das normas do contrato.
O presidente da Urbs lembra que uma das principais mudanças operacionais do sistema é uma alteração na equação que calcula quanto deve ser pago às operadoras. O valor deixará de ser calculado apenas pela quantidade de quilômetros rodados e passará a variar também de acordo com o número de passageiros transportados. Com isso, as operadoras também precisarão se preocupar em trazer mais usuários ao sistema. "O risco da demanda é compartilhado com as operadoras. Elas passam a se preocupar com a melhoria do nível de serviço", explica Reck.
Melhorias
Na licitação, os consórcios se comprometeram com propostas técnicas que implicam a melhoria do sistema de transporte nos próximos dois anos. Essas medidas devem ser implantadas gradualmente, o que deve elevar a qualidade do sistema. As empresas se comprometeram com a circulação de ônibus menos lotados, com a diminuição do tempo de viagem e com mais espaço aos passageiros, sem impacto nas tarifas. O acesso de cadeirantes e pessoas com dificuldade de locomoção nos ônibus também deve ficar mais fácil até 2012. Além disso, a frota em circulação deverá ser mais ecológica, operando com combustíveis e motores menos poluentes.
Cada consórcio também se comprometeu em oferecer, fora dos horários de pico, 9 mil quilômetros rodados gratuitos por mês à prefeitura para ações sociais. Além disso, as empresas também devem adotar medidas voltadas à capacitação dos funcionários para tornar o sistema mais eficiente e seguro e melhorar o relacionamento com os usuários de ônibus.
De acordo com a assessoria do Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba (Setransp), a primeira meta a ser cumprida pelos consórcios é aumentar a velocidade operacional do sistema, fazendo com que o número de passageiros diminua dentro dos ônibus e melhore a qualidade do serviço. A frota deverá ser renovada gradualmente, atingindo 542 novos ônibus nos próximos dois anos. Ontem, representantes das empresas estiveram reunidos para dividir responsabilidades e definir prioridades.
Para Bertin, a concessão do transporte público pode trazer um cenário futuro diferente, com algum novo grupo empresarial para disputar a licitação ou que envolva uma integração entre os sistemas viário e de metrô. "Eu acho que [a licitação] demonstrou que, neste momento, temos um setor empresarial em condições de assumir suas responsabilidades. Agora, a questão é cobrar as mudanças que foram estabelecidas no edital. É preciso verificar em quanto tempo começam a aparecer essas mudanças", alerta Reck.
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