
Ucraniano fica sem comida, mas não sem igreja. A frase que um jovem eslavo disse ao principal líder dos ucranianos católicos do Brasil, dom Volodemer Koubetch, pode até soar como exagero. Mas está longe de ser fictícia. A religião é um elemento indissociável da cultura da etnia, que comemora 123 anos da imigração para o Brasil neste ano.
INFOGRÁFICO: Veja a simbologia e as principais diferenças da arquitetura religiosa ucraniana
O Paraná abriga a maior comunidade ucraniana da América Latina: 400 mil descendentes. O cônsul honorário da Ucrânia em Paranaguá, Mariano Czaikowski, garante: a maior herança da presença ucraniana no Paraná, primeiro estado a receber os camponeses em 1891, está na inconfundível arquitetura eslava dos mais de 200 templos construídos no estado.
"Falar na história da imigração ucraniana implica voltar parte da atenção para as igrejas, que registram a profunda religiosidade do povo ucraniano e que foram por muito tempo pontos de encontro de toda a comunidade local", explica o antropólogo Paulo Guérios, especialista no tema e professor da UFPR.
O especialista se lembra de uma história que resume bem como a religião está gravada na psique ucraniana. Quando um vizinho distante de Prudentópolis, nos Campos Gerais, que havia quebrado o braço, e, por falta de cuidados médicos, ficou sem poder dobrar o membro novamente, Guérios ficou pensando nas consequências para o trabalho do lavrador. Porém, o comentário de um colega da cidade foi: hoje ele não consegue mais fazer o sinal da cruz.
Febre brasileira
Jornais locais da Ucrânia se referiram à vinda dos camponeses para o Brasil como "febre brasileira". A partir de 1816, só da província da Galícia saíram aproximadamente 20 mil pessoas por ano. E não foi à toa, já que o governo federal brasileiro subsidiou as viagens e prometeu terra livre e até "estradas de esmeralda", como consta em relatos de imigrantes. Os ucranianos não pensaram duas vezes e se mudaram para escapar da pobreza e da falta de perspectivas tanto na parte sob o domínio do czarismo russo quanto na região controlada pelo Império Austro-Húngaro.
Ao desembarcar no Brasil, fundando as colônias de Santa Bárbara e Rio Claro, hoje os municípios de Palmeira e Mallet, respectivamente, encontraram apenas matas fechadas, doenças tropicais, animais selvagens, fome e índios que queriam desalojá-los. "O que os salvou foi a grande capacidade de adaptação dos ucranianos, como diz Helena Kolody", defende a professora aposentada Meroslawa Krevey, 76 anos, responsável pelo Museu do Milênio, em Prudentópolis, e verdadeira sumidade sobre a imigração ucraniana.
Procuram-se padres
Diante das dificuldades, os ucranianos não iam até as autoridades brasileiras ou às representações austro-húngaras para pedir ajuda, mas à igreja. Como o idioma era uma barreira, a solução foi escrever à terra natal, pedindo sacerdotes. Em 1896, chegaram os três primeiros padres e a primeira grande leva de ucranianos.
A partir daquele momento, os padres se tornaram uma liderança política e econômica, organizando escolas e unindo as comunidades. "É como se os ucranianos trocassem a praça pela igreja como lugar de socialização", diz o presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, Vitório Sorotiuk. A realidade comprova: só em Prudentópolis existem 33 igrejas típicas.
"Sinto-me realizado", diz um dos últimos artesãos de cúpulas
Não há quem não gagueje ao tentar pronunciar o nome de Hryhorij Nedorub, 74 anos, um dos mais conhecidos artesãos de cúpulas do Paraná. Ucraniano de Poltava, região central do país eslavo, Nedorub também chamado pelo nome aportuguesado Gregório veio para o Brasil com 10 anos, acompanhando os pais e as duas irmãs mais velhas, que fugiam do regime comunista durante a Segunda Guerra Mundial. "Cheguei só com as calças e os sapatos. E o Brasil se mostrou um paraíso. Hoje me sinto muito mais brasileiro que ucraniano", brinca.
O que o levou a se interessar pelas cúpulas arredondadas das igrejas ucranianas foi a esquisitice dos objetos. "Um dia decidi que queria fazer", conta. Por volta de 1968, ele construiu as primeiras cúpulas de que se lembra, na igreja Santa Ana, no Pinheirinho.
Suas marcas registradas são os revestimentos "escamas de peixe" em aço inox ou alumínio e as esferas de metal abaixo das cruzes das cúpulas. De lá para cá, viajou de Mandirituba a Pato Branco levando sua arte.
"Me sinto realizado espiritualmente ao saber que minhas obras ajudam na caminhada religiosa das pessoas", confessa ele, que é um dos últimos artesãos a dominar a técnica, juntamente com Nicolau Bobalo Neto, residente em Prudentópolis.
Para levar para frente esse conhecimento, Nedorub ensina aos seus funcionários tudo que sabe.



