
A demora trouxe o descrédito para os moradores das proximidades das linhas férreas que passam por Curitiba. O projeto que prevê a implantação do Contorno Ferroviário no Ramal Norte está parado há cinco anos e novamente os governos federal e municipal se movimentam para que ele saia do papel, conforme mostrou a reportagem da Gazeta do Povo de ontem. Mas, cansados de esperar por uma iniciativa do poder público, muitos curitibanos criaram suas próprias alternativas para lidar com transtornos trazidos pela passagem de trens de cargas no meio da cidade.
Cerca de 150 mil pessoas são vizinhas dos trilhos na capital e região metropolitana. A reportagem ouviu ontem sete pessoas que moram há mais de cinco anos em residências praticamente coladas com as linhas férreas, nos bairros Bacacheri e Barreirinha. Todas elas disseram não acreditar na retirada dos trilhos do meio da cidade. O montador industrial Amadeu Escandelaria, talvez seja um dos vizinhos mais antigos dos trilhos do trem. Ele mora em frente a linha férrea, no Barreirinha, desde que nasceu, há 75 anos. "Acredito que enquanto eu estiver vivo não devem tirar isso daqui não", diz. Um dos principais transtornos, segundo aponta Escandelaria, é o barulho das composições.
Aliás, o barulho era uma das reclamações mais antigas da comunidade. Agora a opinião sobre o incômodo já divide os moradores. Um exemplo é a posição divergente de dois moradores, vizinhos dos trilhos no bairro Bacacheri. O professor e consultor Marcelo Karam Guerra, 48 anos, mora há cerca de 13 anos num edifício que fica nos fundos da linha férrea e da residência da dona de casa Shirlei de Souza, 47 anos. Marcelo mora no quinto andar, enquanto o imóvel de Shirlei é na mesma altura dos trilhos. O professor chegou a trocar as janelas dos quartos do apartamento, para tentar minimizar, entre outras coisas, o incômodo causado pelos apitos dos trens. "Mesmo assim, o barulho é muito intenso e é claro que incomoda. Não tem como se acostumar com isso. Mas já foi pior. Só pelo fato dos trens não passarem de madrugada já melhorou bastante", diz. Já a dona de casa diz estar acostumada. Ela mora há 9 anos numa casa da antiga Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA). Esposa há 30 anos de um ferroviário, Shirlei conta com orgulho que seu neto Eduardo, 9 anos, nasceu bem pertinho da linha férrea. "Tivemos outras três crianças da família que cresceram aqui. Estão todos criados e ninguém tem problema de audição. O barulho dos carros incomoda bem mais", afirma.
Vizinha dos trilhos há 30 anos (antes de vir a Curitiba Shirlei morou na Lapa), a dona de casa ainda vai mais longe. "Essas casas existem perto dos trilhos há mais de 50 anos. Quem construiu prédio e veio para cá depois disso deveria ter pensado antes", diz. Marcelo lembra que esse fato pesou na decisão quando veio morar no apartamento, em 1994. "O trem no meio da cidade é complicado, mas acho que o maior problema está na questão da falta de educação das pessoas e também na segurança. Tem muito maquinista que aciona a buzina muito forte", diz. O morador aposta na relação dos ferroviários com a comunidade e lembra que seu filho Gabriel, hoje com 13 anos, esperava ansioso a passagem do trem quando era menor. "Ele ficava na janela só para ver o maquinista acenar", diz.
O morador mais antigo também reclama do abuso dos apitos, mas aponta a sua família como uma das principais culpadas pela presença dos trilhos perto de sua casa. "Meus avós cederam muitas terras para a construção das estradas. Por isso, somos (ele e a filha) obrigados a nos acostumar. Mesmo assim ainda acordo com o barulho, principalmente quando estou dormindo", afirma.



