
Foi enterrado em Curitiba, neste domingo (27), o corpo do médico paranaense Moysés Paciornik, reconhecido internacionalmente por suas descobertas na área da ginecologia e defensor do parto de cócoras. O enterro ocorreu ao meio-dia, uma hora depois do programado, no Cemitério Israelita Santa Cândida.
Paciornik morreu na tarde de sexta-feira (26). Ele estava com 94 anos e teve uma parada cardíaca após passar por uma cirurgia no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O médico passava as festas de fim de ano na companhia da família em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Na última quarta-feira (24), o médico sofreu uma queda e quebrou uma das pernas. Levado de helicóptero para São Paulo, ele passou por uma cirurgia no mesmo dia e, desde então, apresentava um quadro estável. No fim da tarde de sexta-feira, porém, teve uma parada cardíaca e não resistiu.
A cerimônia de despedida teve a presença de cerca de 100 pessoas, entre elas o ex-governador do Paraná Jaime Lerner e o médico Luiz Carlos Borges da Silveira, que foi ministro da Saúde no governo Sarney.
Segundo Ernani Paciornik, filho mais novo de Paciornik, mais de 60 mil partos foram realizados pelo médico em mais de 70 anos dedicados à profissão. Na década de 70 ele percorreu o sul do país e, por meio de estudos científicos, descobriu que as índias da tribo caingangue tinham uma constituição física melhor que as mulheres da cidade, mesmo tendo mais filhos. Para ele, o estilo de vida moderno, com o repouso constante em bancos e cadeiras, causava mais envelhecimento e por isso as índias levavam vantagem quando o assunto era musculatura pélvica e boa saúde. Daí surgiu a defesa do parto de cócoras, em 1975.
Paciornik nasceu em 4 de outubro de 1914 em Curitiba e se formou em Medicina na Universidade Federal do Paraná em 1938. Após a faculdade, especializou-se na área de Ginecologia e Obstetrícia e foi trabalhar no Hospital de Crianças. Quinze anos depois fundou a Casa da Saúde Moysés Paciornik. Foi um dos pioneiros na luta contra o câncer ginecológico e ajudou a fundar o Centro Paranaense de Pesquisas Médicas, que estudava a doença. Também foi professor universitário e fundou na Universidade Federal do Paraná a cadeira de Higiene Pré-Natal, em 1952.
Na década de 60 o Centro Paranaense de Pesquisas Médicas passou a fazer exames de prevenção de câncer do colo do útero e Paciornik e sua equipe encontravam muitas mulheres que tinham preconceito e vergonha de fazer o exame papanicolau. Na época, o câncer era uma das principais causas da mortalidade feminina. Com a difusão do exame, o número de mortes caiu.
O médico era conhecido por sua inseparável gravata borboleta e sempre estava com roupas brancas. Ele foi colunista dominical da Gazeta do Povo por vários anos e as crônicas renderam a publicação de oito livros, além de dois inéditos, prontos para publicação. Há quinze anos ingressou na Academia Paranaense de Letras ocupando a cadeira número 35. Entre os principais títulos estão Brincando de Contar Histórias, Histórias da Terra, Erros Médicos, Aprenda a Nascer com os Índios, Aprenda a Viver com os Índios, Mafiosos de Branco e Conflitos Psicossociais em Consultório Médico. Até os 90 anos de idade Paciornik subia e descia as escadas de seu prédio, intercalando os exercícios da "ginástica índio-brasileira" se agachando e levantando diversas vezes. Eram 19 andares. Nos últimos anos a saúde permitia que ele "somente" descesse. Sempre praticou caminhadas e tinha uma dieta alimentar especial, sem açúcar e gorduras. O médico recebeu diversas homenagens em vida, entre elas o título de Cidadão Benemérito do Paraná e Destaque em Prática Médica da Associação Médica do Paraná. A última foi o prêmio Estado do Paraná, no início de dezembro, em comemoração aos 155 anos da Emancipação Política do estado.



