Os gastos com a segurança privada no país revela quanto o brasileiro anda acuado dentro e fora de casa. Na esteira desse temor coletivo, os ganhos do setor saltaram de R$ 7 bilhões em 2002 para R$ 11,8 bilhões no ano passado. Quarto lugar no ranking dessa indústria movida pelo medo, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o Paraná viu seu número de vigilantes crescer de 13 mil para 17,9 mil no período. Mas os riscos para eles também estão maiores. Só no serviço de transporte de valores, em média cinco vigilantes são mortos e oito ficam feridos a cada ano em tentativas de assalto.
A estatística não conta os vigias clandestinos, que são muitos. Para cada profissional registrado existem outros dois ilegais, conforme estimativa do presidente do Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e da Federação dos Vigilantes do Paraná, João Soares. São 35 mil no estado, com perfil o mais variado. No último dia 23, um policial foi morto a tiros e outro ficou ferido numa tentativa de assalto a um atacado de artigos de R$ 1,99, na Vila Fanny, em Curitiba. Faziam bico como segurança fora do expediente da Polícia Militar, o que é proibido pela corporação.
Os vigilantes legalizados passaram de 320 mil para 382 mil no Brasil entre 2002 e 2005. São a parte visível de um negócio que cresce mais do que o conjunto da economia brasileira. A segurança privada avançou nesse intervalo a uma taxa média de 6% ao ano, bem acima do Produto Interno Bruto (PIB), cujo pico foi de 4,9% em 2004, reduzido a 2,3% ano passado. O Paraná respondeu por R$ 496 milhões do faturamento do setor em 2005, acréscimo de 13% em relação ao ano anterior. No acumulado desde 2002, o estado despontou na região Sul com um crescimento de 65%, contra 61% de Santa Catarina e 55% do Rio Grande do Sul.
"Hoje, a sociedade se protege mais com a segurança privada do que com a pública", diz o presidente da Federação dos Vigilantes. Os números oficiais revelam só uma parte dessa indústria, que inclui serviços de vigilância patrimonial, segurança pessoal, escolta armada, transporte de valores e cursos de formação. Fogem dessa estatística os gastos com cerca elétrica, alarme, cão de guarda e outros meios. "O cidadão gasta na sua proteção mais do que o governo investe em segurança pública", conclui João Soares.
No Paraná, o faturamento das empresas é apenas um pouco menor do que todo o orçamento do governo do estado para a segurança pública. O setor só cresce porque antes crescem os índices de criminalidade e violência no país. Conforme dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), entre 2001 e 2003 os crimes contra o patrimônio, como roubo e furto, foram os que mais cresceram no período (cerca de 25%), passando de 2,3 milhões de ocorrências para 2,9 milhões. Alguns números parecem pequenos diante de vigorosa estatística, mas são particularmente importantes por representar o mais alto grau de risco aos vigilantes.
Este é o caso dos assaltos a banco ou a carros-forte. Segundo a Federação dos Vigilantes do Paraná, o número de assaltos a carros-forte por ano no estado oscila entre 20 e 30. Na média, cinco profissionais são mortos e oito ficam feridos nessas ações, conforme estimativas das seguradoras. No ano passado houve uma redução desse tipo de crime, com 13 tentativas e cinco assaltos consumados. Contudo, os dois primeiros meses de 2006 apontam uma nova alta. Em janeiro e fevereiro já houve oito ocorrências do gênero (foram dois assaltos e uma tentativa só em Curitiba).
Numa dessas ações, no último dia 13, o vigilante João Batista Barbosa foi morto em frente ao banco HSBC, no bairro Mercês. Ao contrário de Barbosa, Hederaldo Schimit, o policial florestal de 30 anos morto fazendo bico como segurança na loja de R$ 1,99, está fora das estatísticas e da cobertura das seguradoras. O valor pago à família é 52 vezes o salário da vítima quando há invalidez permanente e 26 vezes no caso de morte. No Paraná, o melhor piso salarial do país depois do Distrito Federal, um vigilante patrimonial ganha R$ 1.054,00 por mês somando todos os benefícios. Os que trabalham no transporte de valores ganham R$ 1,8 mil, em média, incluindo o adicional de risco.
Os clandestinos morrem mais facilmente porque não estão preparados para exercer a função, diz João Soares. O vigilante legalizado tem de passar por um curso com uma carga de 180 horas, em média, para aprender a manejar armas de fogo, a lidar com o público, combater incêndio, aprender primeiros socorros, ter noções de Direito Penal e defesa pessoal. No caso de quem vai trabalhar no transporte de valores o curso é mais rigoroso porque terão de usar armas mais poderosas, terão de estar preparados para reagir e porque a atividade significa mais riscos.



