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Guerra do Paraguai

Crianças intimadas para o fronte

Os paraguaios comemoram o Dia das Crianças no próximo dia 16. A data se refere aos recrutas infantis que morreram na batalha de Acosta Ñu

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"As crianças, no fervor da batalha, apavoradas, se agarravam às pernas dos soldados brasileiros, chorando para que não fossem mortas. E eram degoladas no ato." A frase é uma recordação de um sobrevivente soldado infantil, recrutado pelo Paraguai, para lutar durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) e está registrada em documento do Ministério da Defesa. Acredita-se que cerca de 3 mil crianças morreram em combates na Guerra do Paraguai. Elas tinham entre 10 e 14 anos e chegaram a constituir cerca de 50% do Exército paraguaio, principalmente no final da guerra, em uma batalha de nome Acosta Ñu.A batalha ocorreu no dia 16 de agosto de 1869 e teve o maior número de baixas no exército. Foi por causa dela que o Paraguai mudou, nos anos 1940, o Dia das Crianças de 13 de maio para 16 de agosto. "O 13 de maio era uma data seguida do Dia da Pátria (14) e do Dia das Mães (15), mas não tinha uma simbologia forte. Quando começa a ditadura militar no Paraguai, se inicia uma proposta de homenagear as crianças que deram o seu próprio sangue pelo país", afirma a historiadora paraguaia Ana Barreto.

A mudança de data marca uma posição nacionalista bastante forte no Paraguai que até hoje divide opiniões. As crianças deixaram de ser vistas como mártires de uma guerra injusta e passaram a ser heroínas. "Antes disso, eram raros os livros didáticos que mostravam figuras de crianças portando uma lança na mão e com o uniforme paraguaio todo rasgado", explica Ana.

Para a historiadora, as crianças não são heroínas, continuam sendo mártires. Para o escritor e pesquisador paraguaio Jorge Rubiani "as crianças, assim como os pais delas e toda a população paraguaia, estiveram simplesmente envolvidas no conflito porque a guerra se desenvolveu em território paraguaio e todo o povo ficou envolvido naquele desastre." "Se sobreviviam, as crianças eram sequestradas por oficiais brasileiros que as levavam para o Brasil para serem vendidas como escravas", afirma.

Recrutamento

Inicialmente, Solano López havia decretado um recrutamento em que toda a população masculina deveria servir ao Exército. Só não iriam para a guerra o presidente e os homens do governo civil. "Após o decreto, foi feito um levantamento de quantos homens existiam em cada casa e a idade deles", diz Ana. Primeiro, o decreto recruta homens entre 18 e 60 anos, mas depois vai baixando a idade para 16, 14, até chegar aos 10 anos.

Não há registros oficiais, segundo os historiadores consultados, de crianças de 6 a 8 anos recrutadas pelo governo, mas é possível que elas tenham ido à guerra para acompanhar os pais. "As famílias não reagiam porque o governo, por meio da imprensa, convence a população de que deveria entregar seus filhos. Além disso, quem se queixava da guerra era preso", comenta Ana.

As mães, insatisfeitas com a guerra e sem querer se comprometer oficialmente, chegaram a vestir seus filhos como se fossem meninas. Já as crianças que foram ao combate teriam usado disfarces como barba, para parecerem mais velhas. "Em um relato de Taunay há a afirmação de que os lanceiros brasileiros baixavam as lanças para atingir as crianças e depois os corpos voavam. Eram crianças pequenas e muitas subnutridas", afirma o historiador Ricardo Salles, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Recrutamento infantil é um problema mundial

Infelizmente, o recrutamento de crianças para o Exército, guerrilhas ou milícias é um problema que não ficou no passado. É assim que o professor da Universidade de Brasília Pio Penna Filho, doutor em História das Relações Internacionais, inicia a entrevista. "O problema ficou evidente por causa dos conflitos na África dos anos 90. Temos ainda o caso das Farc na Colômbia e, se quisermos fazer uma análise mais forte e realista, basta olhar para São Paulo e Rio de Janeiro para vermos as crianças envolvidas nas batalhas do tráfico", afirma.

Há casos de crianças envolvidas em guerras na América Central, em conflitos asiáticos e no Oriente Médio. A diferença (com relação à Guerra do Paraguai) é que hoje o recrutamento, em grande parte, não é feito pelo governo e não é em grande escala. "Tenho notícias de meninas que são recrutadas à força em alguns países para servirem, muitas vezes, sexualmente a uma determinada guerrilha. Elas eram tatuadas com o nome da guerrilha como se fossem uma propriedade", explica Penna.

Em Uganda, na África, há registros ainda de crianças que, à noite, são colocadas na igreja ou em um hospital para evitar que sejam roubadas de dentro da própria casa. "Mas, quando a situação complica, em muitos países africanos as crianças acabam sendo recrutadas pelo próprio governo", explica Penna.

Criação

Quando a criança é retirada do berço familiar e levada para combate, ela passa a ver a guerrilha da qual faz parte como a sua família e, depois, segundo Penna, mudar esta situação é muito complicado. "Elas crescem e são ressocializadas dentro destas guerrilhas e depois não conseguem se desvincular", diz. Penna lembra do caso dos nazistas, que recrutaram crianças na Segunda Guerra, quando já havia o conceito de infância. Elas recebiam medalhas de Hitler após os combates e, quando Hitler se suicidou, a formação ideológica estava tão centrada que milhares de jovens se mataram também.

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Interatividade

O que poderia ser feito para minimizar o recrutamento de crianças para milícias e para o tráfico?

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