
Filho único e sem outras crianças na família, Henrique (nome fictício) cresceu sem saber o que é dividir brinquedos, doces ou mimos com outras crianças. A falta de convivência com meninos e meninas da mesma idade escondeu até os 5 anos a ocorrência de um comportamento instável, irritado e até mesmo agressivo por parte do garoto. Os problemas começaram quando Henrique foi para a escola.
"As professoras reclamavam que ele tinha um comportamento difícil, que era temperamental, mas a gente não acreditava, porque em casa ele era um doce", conta a mãe. A desconfiança e o descrédito nas informações passadas pelas professoras fizeram com que os pais decidissem trocar o garoto de escola.
De uma escolinha pequena ele foi para um colégio grande. Mas com a mudança os problemas apenas aumentaram. Foi então que os pais decidiram procurar ajuda. "Foram quase dois anos nessa angústia até descobrir que ele sofria de transtorno bipolar", diz a mãe.
Assim como muitas crianças que sofrem do problema, Henrique teve dificuldades no rendimento escolar e chegou a ser considerado hiperativo. "Ele tomou remédio para hiperatividade, mas achamos estranho que não melhorava, pelo contrário, estava piorando. Quase no fim do ano decidimos tirar ele da escola, não dava mais", lembra. Insatisfeita, a mãe resolveu trocar de médico e dessa vez o diagnóstico foi feito de forma correta. Mesmo assim Henrique perdeu um ano na escola. Quando voltou a estudar, dessa vez em outro colégio, começou na primeira série, mas acabou retornando à pré-escola.
O caso de Henrique não é único nem isolado. A medicina ainda sabe pouca coisa sobre os chamados distúrbios do humor, no qual se enquadra o transtorno bipolar. Se em adultos eles já causam controvérsias e podem ser confundidos com outras patologias, em crianças essa dificuldade pode ser ainda maior. Enquanto nos adultos as variações de humor que caracterizam o transtorno (alterações entre fases euforia a depressão) são bem marcadas, nas crianças essas manifestações são bem mais instáveis. "A criança pode mudar de um estado para outro no mesmo dia", observa o neuropediatra e pesquisador do Instituto Pelé Pequeno Príncipe na área de distúrbios do desenvolvimento na infância, Antônio Carlos de Farias.
Na adolescência, a presença de um comportamento mais instável, por conta das alterações hormonais características dessa fase, podem dificultar ainda mais o diagnóstico. "Por mais que na adolescência sejam comuns as variações de humor, são coisas que não chegam a interferir na vida social e acadêmica, quando alguma dessas áreas começa a ser afetada, é hora de investigar", observa o médico. De acordo com a neuropedriatra Ana Chrystina Crippa, outro fator que dificulta o diagnóstico é a confusão com a depressão. "Em muitos casos ainda não houve tempo de se manifestar a fase da euforia, porque a maioria das vezes a depressão aparece primeiro", afirma. Acredita-se que um terço dos pacientes comece a ser tratado de forma errada por conta dos equívocos no diagnóstico.
No Brasil não existem estatísticas precisas sobre a ocorrência do transtorno bipolar em crianças e adolescentes. Um estudo feito pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, mostrou que naquele país os diagnósticos do distúrbio cresceram em 40 vezes no período entre 1994 e 2003. O número chama atenção, mas segundo os especialistas não significa que a ocorrência do transtorno tenha crescido de forma descontrolada.
"A doença sempre existiu. O que aumentou foi a consciência da classe médica em relação ao problema", acredita o neurologista. O psiquiatra e diretor do Hospital Nossa Senhora da Luz, Dagoberto Requião, compartilha da mesma opinião. "Não acho que os casos é que estejam aumentando, mas sim que o conhecimento para diagnóstico está melhor", afirma. Embora o não reconhecimento da doença seja preocupante, os especialistas alertam para o risco de um exagero nos diagnósticos. "Não é toda criança que tem um humor mais instável, mais irritado que é bipolar", ressalta Farias.
Por se tratar de uma condição crônica, o paciente de transtorno bipolar pode precisar de acompanhamento médico para o resto da vida. Ainda não existem drogas desenvolvidas especialmente para tratar crianças. Atualmente, o tratamento é feito com os mesmos medicamentos administrados a adultos, porém com doses menores.



