
Enfrentar crises não é novidade para os hospitais que atendem usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). A maioria convive com a falta de recursos e com o subfinanciamento crônico, desde que o sistema, que completou 20 anos em 2008, foi criado. A crise econômica mundial, entretanto, agravou estes problemas e deixou gestores e funcionários em estado de alerta.
De acordo com o presidente da Federação dos Hospitais do Paraná (Fehospar), Renato Merolli, por enquanto não há risco de paralisação dos hospitais da capital e tudo está sendo feito para que o atendimento não seja prejudicado. O 4º Fórum Paranaense de Gestão Hospitalar, que termina hoje, promovido pela Associação Paranaense de Instituições Hospitalares (APIH) em Curitiba, discute justamente a sobrevivência dos hospitais durante este período de incertezas.
Como explica o médico Marcos Bosi Ferraz, coordenador do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), convidado do evento, os hospitais sofrem pressões de todos os lados: "Dos planos de saúde, que precisam lidar com atrasos e falta de pagamento; do governo, que está arrecadando menos impostos; e dos fornecedores de medicamentos e materiais que, por causa da variação cambial, aumentaram os seus preços".
"Nós nunca saímos da crise. Mesmo com a economia estável, sempre precisamos correr atrás do prejuízo. Mas neste ano, apesar do planejamento e do nosso modelo de gestão, houve um agravamento dessas dificuldades. O nosso maior problema tem sido o aumento dos preços de materiais e medicamentos importados, causado pela inflação e pela alta do dólar. De setembro do ano passado até agora, o preço desses produtos subiu entre 10% e 12%", conta Flávio Tomasich, superintendente do Hospital Erasto Gaertner.
Outro fator que tem preocupado os hospitais filantrópicos, que oferecem atendimento público e particular, é a diminuição da receita que vinha dos atendimentos aos beneficiários dos convênios médicos. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar, existiam no Brasil, até dezembro do ano passado, 41 milhões de usuários de planos de saúde. Mais de 80% desses planos são pagos por empresas. "Uma crise econômica causa desemprego, afeta a renda familiar e o primeiro gasto que se corta é o pagamento do plano. Desde o fim do ano passado houve uma diminuição de cerca de 10% dos internamentos via convênio nos hospitais que administramos", conta Álvaro Luis Lopes Quintas, diretor-geral da Aliança Saúde, da qual fazem parte o Hospital Universitário Cajuru e a Santa Casa de Misericórdia.
A crise provoca a diminuição no número de atendimentos particulares, e, consequentemente, o aumento dos atendimentos pelo SUS, como explica o diretor clínico do Hospital Pequeno Príncipe, Donizetti Giamberardino Filho. "Enquanto a receita vinda dos planos de saúde que garante a nossa sobrevivência diminui, os gastos com o SUS aumentam. Cerca de 60% dos nossos atendimentos são pelo SUS, que, por sua vez, só cobre 60% desses gastos. É uma equação difícil de resolver", observa.
As convenções coletivas de trabalho, em negociação entre os meses de abril e maio, podem complicar ainda mais a situação das instituições de saúde. "Não há como negar o reajuste aos servidores, mas não temos condições de dar um aumento entre 8% e 10%", afirma Álvaro Quintas.
Próximos passos
Para prevenir que a crise econômica prejudique o atendimentos aos pacientes da saúde pública, os maiores hospitais da cidade estão, desde o início do ano, tomando uma série de medidas para gastar menos e arrecadar mais. Giamberardino Filho, do Pequeno Príncipe, conta que, graças aos programas de captação de recursos e de renúncia fiscal, tem sido possível manter as doações. "Infelizmente, não conseguimos aumentar a nossa receita na mesma proporção dos reajustes de preços. Já tivemos de cancelar alguns projetos e, ao invés de adquirirmos novas máquinas, optamos por consertar as antigas."
O médico Constatino Miguel Neto, diretor-geral do Hospital Evangélico, explica que, para driblar a falta de crédito bancário, cada vez mais escasso, planeja-se um corte de 20% nas despesas. "Precisamos fazer essa economia para não suspender serviços. Mas, em um hospital, quase nada é supérfluo. Além disso, não é possível substituir o bom pelo mais ou menos. Na pior das hipóteses, teremos de cortar o atendimento em setores com o menor número de emergências", alerta.
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