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histórias natalinas

De calça Far-West

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O primeiro Natal de que me lembro, eu tinha 4 anos de idade e morava no Novo Mundo. A casa era de madeira, tinha um quintal grande na frente, sapos coaxando e uma empregada meia doida, a Iolanda, que corria atrás de mim e das minhas manas em volta do poço, com um cabo de vassoura na mão. Não havia conselho tutelar.

Mas teve remédio. O patrão de meu pai, um homem muito bom, mandava presente para os filhos dos funcionários. De modo que o trauma passou. Acho.

O pai passou um sabão na Iolanda, tirou da Kombi uma boneca gigante e uma enciclopédia de três volumes. Os livros foram para a estante, ao lado da televisão e a gente aprendeu a gostar deles. Hoje, não tenho fortuna, mas minha biblioteca é meu tesouro. Me dá ciúmes. Fico buzina se alguém empresta um título e não devolve (alô, Jardel).

Quem vai lá em casa sempre pergunta se já devorei tudo aquilo. Respondo que não, lógico, mas que quando olho para as estantes lembro que não posso morrer ainda, pois tenho muita coisa para ler. Calculo ter uns 60 natais pela frente.

Um outro Natal daqueles foi quando eu tinha 10 anos. Caí na burrada de olhar pelo portão do vizinho e vi uma cena de filme: a árvore gigante, os presentes em baixo e a família do "Chima", feliz como na cena de um filme. Meus pais tinham comércio, trabalhavam até tarde e no Natal mais ainda. A vida da gente era dizer "feliz Natal, vizinho", pendurar os fiados e, quase à meia- noite, desabar no sofá, sem ânimo para mastigar uma rabanada. Naquele ano, a ressaca foi pior: o Marcelo, meu amigo, ganhou uma Calói azul. E eu não. Aos 10 anos, sabe, a gente magoa.

Superei. Gosto da minha família do jeito que ela é. Dei bicicletas para meus dois sobrinhos, mais de uma vez. E até tenho saudade de fazer pacotes de presente para meia Água Verde na lojinha que a gente tinha.

Até hoje, só passei dois natais fora de casa. O primeiro foi em 1982, em Campinas. Eu era noviço e me preparava para fazer os votos, dali um mês. Ainda lembro do povo da missa cantando a música bonita – "esta noite é uma noite santa, nasceu-nos o Menino Deus".

No final, demos abraços nos fiéis, que foram embora, deixando a gente com cara de cachorro sem dono. Nossa ceia, lembro, foi cachorro-quente – pois a comunidade estava na pindaíba. Mas tinha catchup. Antes de dormir, subimos na cúpula da igreja e ficamos olhando a cidade lá de cima. Chororô: eu ali e o pessoal em casa, estirado no sofá, lembrando de tudo o que tinham vendido para os fregueses. Doeu.

O segundo Natal sem família foi ano passado, em Paris, com dinheiro contadinho na burra. Minha ceia – um prato de salada minúsculo, ao custo de quatro euros, devorado depois da Missa do Galo na Catedral de Notre Dame. Na hora da compra na delicatessen, fui até revistado. Paris não é uma festa. Me vi de novo na cúpula da igreja de Campinas: eu ali, o pessoal lá em casa, comendo o jantar que minha irmã Cecília faz.

Pois é, depois de tantos natais atrás do balcão, a gente aprendeu a comemorar. Agora, lá em casa, é quase igual à família do Chima. O pai não sofre por causa de fiados. E já tenho minha Calói. Mas confesso que na hora da festa me dá uma pontinha de tristeza: nunca mais vi noviços com os quais comi cachorros-quentes. E os vizinhos se foram – a Alice para Passo Fundo; dona Lila para um apartamento; dona Cléia para o céu.

Quanto a Iolanda, pasmem, habita minhas melhores memórias de infância. Olhe, onde quer que esteja, saiba que até acho graça da tua brabeza. Lembra do pega? Eu vestia calça Far-West com elástico atrás, da cor de uma Calói. É a roupa da minha vida.

Vestido naquela calça, descobri que livros devem ficar no melhor lugar da casa e que podem explicar quase tudo. Entre outras coisas, eles me ajudaram a entender você, a saber que nada é por acaso, que não temos tudo o que queremos e que as pessoas não são o que gostaríamos que fossem. Simples como isso.

Ah! E que a melhor ceia de Natal é sempre lá em casa. Apareça.

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