
O advogado da médica Virgínia Soares de Souza, acusada de provocar a morte de pacientes no Hospital Evangélico de Curitiba, entregou ontem a defesa preliminar à Justiça. O objetivo é demonstrar que a ex-chefe da UTI não tinha benefício financeiro em caso de óbito e a consequente desocupação de leitos. A própria denúncia apresentada pelo Ministério Público (MP) não apontou ganho material para a médica ou sua equipe. O motivo das mortes foi "torpe", para fazer "a UTI girar", diz a acusação.
"A única justificativa é tachá-la de psicopata. Mas para que isso [as mortes provocadas] acontecesse, ela teria de ter reunido vários outros psicopatas", declarou o advogado Elias Mattar Assad, defensor da médica. "Nunca vi uma reunião tão grande de psicopatas em um mesmo lugar", ironizou.
Assad também apresentou uma carta de uma testemunha anônima que, para ele, representa uma "bomba" com potencial para uma reviravolta no caso. Um denunciante afirma que um grupo econômico paulista teria influenciado as investigações para desmoralizar o Hospital Evangélico. Dono de faculdades na área de engenharia, o grupo desejaria expandir os negócios para o ensino de medicina e, sabendo das dificuldades financeiras do Evangélico, teria influenciado nas investigações como forma de enfraquecê-lo, tornando-o mais suscetível à venda.
O advogado tem duas cartas enviadas a ele pelo denunciante, que foi listado como testemunha. Numa delas, escrita à mão e apresentada à imprensa, a trama é narrada de forma genérica, sem citar nomes de pessoas ou empresas. Na outra, segundo Assad, alguns nomes são revelados. "Como a promotoria pode trabalhar com denúncias anônimas, eu também posso", justificou.
A defesa requereu a exumação dos sete corpos das supostas vítimas listadas no processo. O objetivo é verificar se esses pacientes morreram por causa de doenças e traumas que os acometiam ou se as mortes foram causadas por administração incorreta de medicamentos. Segundo o MP, essa era a forma usada pela acusada e a equipe para matar as vítimas. "Tenho certeza de que esses pacientes viriam a óbito em qualquer hospital do mundo", diz Assad.
O advogado pediu ainda a desqualificação das transcrições das escutas telefônicas de Virgínia de Souza. Inicialmente, o texto apontava que a médica dizia: "a gente está com a cabeça fria para assassinar". Depois, a polícia corrigiu a transcrição. No lugar, Virgínia teria dito: "a gente está com a cabeça fria para raciocinar".
"A degravação errada demonizou a Virgínia diante do juiz", critica Assad. Também foi pedida a nulidade dos prontuários como prova, já que foram retirados do hospital pela Justiça e os originais estão inacessíveis à defesa. Sessenta e quatro pessoas foram listadas como testemunhas.



