
Desde 2008, cerca de 50% das internações por dengue no país foram de crianças e adolescentes com até 15 anos. O aumento da doença neste público tem como fatores a sequência de circulação do vírus da dengue tipo três a partir de 2002 e o reaparecimeto do tipo dois em 2006. A conclusão é do professor do departamento de saúde coletiva do Instituto de Patologia e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (UFG) e assessor do programa nacional de controle da dengue do Ministério da Saúde, João Bosco Siqueira.
"Sempre é um desafio entender o que virá daqui para frente. Até agora, a sequência do vírus três e dois se mostrou a mais perigosa para crianças. E há possibilidade que fique mais grave, mas não podemos ter certeza, já que as últimas epidemias foram marcadas pela migração simultânea em todo o país", afirma o pesquisador. A organização sul-coreana "Pediatric Dengue Vaccine Initiative", que incentiva a diminuição de casos da doença por meio de vacinas, estima que 2 milhões de pessoas a maior parte crianças desenvolvem a febre hemorrágica e que 230 milhões são infectadas pela dengue anualmente.
"O aumento de casos e a internação de crianças é algo que onera muito o sistema público", diz Siqueira. O impacto econômico da dengue nas Américas é estimado em mais de US$ 1 bilhão anualmente. No Brasil, somente os custos de hospitalização pelo Sistema Único de Saúde foram de R$ 120 milhões na última década. No primeiro semestre de 2010, o valor já chegou em R$ 21,1 milhões. "A vacina contra a dengue é importante neste contexto. Além disso, elaborar planos contínuos para redução da mortalidade e aperfeiçoamento da prevenção são medidas essenciais", salienta o pesquisador.
No Brasil, um estudo clínico com crianças e adolescentes foi lançado na semana passada, em São Paulo, pela Sanofi Pasteur, divisão de vacinas do grupo Sanofi Aventis. O estudo é parte do desenvolvimento da vacina-candidata tetravalente (direcionada aos quatro tipos de dengue, produzida com vírus vivo atenuado), cujos experimentos clínicos (fases I e II) iniciaram em 2000 em adultos e crianças nos Estados Unidos, Ásia e América Latina. O recrutamento de voluntários para o estudo brasileiro começou no fim de agosto e cerca de 50 crianças e adolescentes sadios, entre 9 e 16 anos, já tomaram a vacina. Serão 150, até o próximo ano, que tomarão três doses com um intervalo de seis meses entre elas. Conduzido pelo Núcleo de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o estudo tem duração prevista de 18 meses e deve terminar os levantamentos em meados de 2012, de acordo com o coordenador Reynaldo Dietze. O estudo é cego (um grupo toma a vacina e o outro placebo, mas não sabe em qual está encaixado) e vai avaliar a produção de anticorpos e segurança da vacina. No final do semestre, capitais como Goiânia, Fortaleza, Natal e Campo Grande podem entrar no estudo, segundo Dietze.
Mundo
Desde o ano 2000, cerca de 4 mil pessoas receberam uma ou mais doses da vacina tetravalente contra a dengue em monitoramentos clínicos nos Estados Unidos, Ásia e América Latina. Um estudo sobre eficácia está em andamento na Tailândia, no entanto, sem resultados sobre o quanto duraria a proteção. Ainda não há dados sobre o custo da vacina e viabilidade para o sistema de saúde pública no Brasil. "Queremos trabalhar para disponibilizar a vacina o mais rápido possível e trabalhar com a saúde pública. Mas ainda há muita pesquisa pela frente", diz a diretora de Saúde Pública da Sanofi Pasteur, Lúcia Bricks.
Casos devem aumentar no verão
Até 31 de agosto, o Paraná registrou 26.987 casos confirmados de dengue, sendo 26.141 autóctones (infectados no próprio estado). Suspeitos totalizam 59.195, segundo dados do Boletim da Dengue da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Em comparação com 2007, ano epidêmico, houve aumento de 6,55% nos casos confirmados e de 31,85% nas notificações. A Região Sul é a quinta com maior número de casos no país. O único estado da região considerado de alerta para contaminação é o Paraná, segundo o Levantamento de Índice Rápido por Infestação por Aedes aegypti (LIRAa), do Ministério da Saúde. Para o verão, dependendo do volume de chuvas, a expectativa é que os casos aumentem.
"Este foi um ano atípico em termos de clima, com período de chuvas prolongadas, que ajudou na proliferação. Com a seca do inverno, observamos queda nos casos. Mas com a volta das chuvas no verão, há expectativa de retorno", diz a chefe da divisão de doenças transmitidas por vetores da Sesa, Márcia Gil Aldenucci. Márcia salienta que a atitude da população é essencial para o controle dos criadouros. Em todo o Paraná, cerca de 3 mil agentes trabalham para identificar a larva e focos de risco nas residências.
Em Curitiba, o levantamento do LIRAa apontou que não foram encontrados focos do mosquito. Porém, segundo a coordenadora do Programa Municipal de Controle da Dengue, Viviane Poletto, de janeiro até o setembro foram registrados 62 focos de larvas do inseto. "A expectativa com as chuvas e com o verão é que os focos aumentem. Por isso, a ação dos agentes é contínua."



