
Diariamente, 151 condutores são flagrados avançando o sinal vermelho em Curitiba. O número de multas aplicadas contra esse tipo de delito cresceu 28% desde 2007, segundo a Urbs. Quando apenas os anos de 2009 e 2010 são comparados, a variação é ainda mais assustadora: 47,5%. O crescimento se deve, principalmente, pelo aumento da fiscalização eletrônica na capital. Desde 2009, 59 cruzamentos têm equipamentos que flagram o desrespeito ao sinal fechado. A punição para quem "fura" o vermelho é multa de R$ 191,54 e mais sete pontos na carteira de habilitação.O crescimento das autuações evidencia uma realidade de constante desrespeito ao Código de Trânsito, que provoca acidentes graves, como o que ocorreu no último sábado, no bairro Juvevê. Um taxista e um passageiro morreram depois que, segundo testemunhas, uma caminhonente conduzida por um motorista de 20 anos avançou o sinal vermelho.
Na opinião da coordenadora do Núcleo de Psicologia do Trânsito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Iara Thielen, os motoristas, principalmente jovens, simplesmente ignoram o semáforo. "Os jovens não acreditam em limites. Quantas vezes eles furaram o sinal vermelho e saíram ilesos. Eles não acreditam nas consequências", diz.
Para a psicóloga, o problema está na lei. "Nos Estados Unidos, se você é flagrado cometendo uma infração, você é julgado na hora. No Brasil, são recursos e recursos. Como uma colisão provocada por alguém que decide cruzar um sinal vermelho pode ser chamado de acidente? Acredito que a legislação de trânsito deveria tomar um choque de realidade."
Para o presidente da Comissão de Trânsito da seção Paraná da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), Marcelo Araújo, o que faz com que o motorista passe no sinal verde com certa tranquilidade é algo que vai além da fé: é a regra. "A fiscalização, os radares, apenas revelam um problema que existe. Se tivéssemos um guarda de trânsito em cada cruzamento da cidade, os números [de desrespeito ao sinal] seriam muito maiores", afirma.
O semáforo não existe por acaso, diz André Caon, coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana e presidente da Sociedad Peatonal uma ONG de defesa dos pedestres. "Ele tem a finalidade de evitar acidentes. Toda vez que alguém escolhe furá-lo é um risco que o condutor assume. É uma roleta-russa. Pode não acontecer nada, mas também pode matar alguém. E o sinal amarelo não quer dizer: corra", diz.
Combinação explosiva
O acidente de sábado não foi causado apenas por uma irregularidade, mas por uma combinação de três. Além do avanço do sinal vermelho, testemunhas disseram que Leonardo Brandalise Kucinski, 20 anos, condutor da caminhonete, estava em alta velocidade e apresentava sinais de embriaguez. Ele se recusou a fazer o teste do bafômetro.
O número de autuações por embriaguez ao volante também aumentou nos últimos anos, segundo o Batalhão de Policiamento de Trânsito de Curitiba (BPTran). Desde a aprovação da Lei Seca, em 2008, em média, 85 motoristas curitibanos são flagrados por mês dirigindo alcoolizados. Mensalmente, 77 pessoas são encaminhadas à delegacia com sinais de embriaguez.
O comandante do BPTran, coronel Leomir Matos de Souza, diz que os condutores bêbados têm uma falsa sensação de impunidade. "Eles acham que ficarão impunes administrativamente e criminalmente. Mal sabem que bebendo demostram falta de amor à própria vida e a dos outros."
Para diminuir o número de mortes e de vítimas nas ruas, o comandante conta que o BPTran aposta na realização de blitze. De janeiro a julho deste ano, revela o coronel, aconteceram 347 operações de trânsito, contra 220 realizadas no mesmo período do ano passado. "Já autuamos 597 motoristas neste ano. Nosso objetivo é fiscalizar para diminuir o número de mortos e de feridos. E estamos chegando lá", diz.
Para o advogado Elias Mattar Assad, que representa a família de Gilmar Yared, morto em julho de 2009 em um acidente envolvendo o então deputado Fernando Ribas Carli Filho, pouco a pouco a Justiça vem adotando uma postura mais firme em relação a acidentes provocados sob efeito de álcool. "A sociedade começou a se incomodar com o tema. Estamos perdendo muitas vidas. A combinação bebida, volante e velocidade é dolo eventual", afirma. Mesmo assim, Assad defende que o Código Penal deveria ser mais rigoroso.
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