
Para muitas mulheres, o sonho do príncipe encantado vindo de algum lugar distante ainda é atual. No caso de Nariman Osman Chiah, paranaense que fugiu do marido no Líbano, o casamento internacional não teve um final feliz. Após passar anos no Brasil, ela e o marido, Ahmed Holeihel, retornaram ao Líbano. De acordo com a jovem, ele passou a agredi-la fisicamente. Segundo familiares, o local onde a família dele vive é muito tradicionalista e Ahmed, apoiado neste fato, passou a ser intolerante com a esposa, chegando a ameaçá-la de morte. O caso levantou uma polêmica sobre diferenças culturais. Amigos da família disseram que ao chegar chegar no país, Ahmed decidiu descontar em Nariman o que não podia fazer aqui.
Fátima Iskandar é muçulmana, tem três filhas e acredita que há muitas diferenças entre os brasileiros e os libaneses. "Os brasileiros são mais abertos, porém não entendem nossa cultura. Já os libaneses acabam sendo mais rígidos, então não sei com quem elas prefeririam se casar." Fátima passou por problemas antes de se casar. O pai a mandou com a irmã para a casa de um tio no Líbano com casamentos já acertados. "Não sabíamos de nada. Quando chegamos lá, meu tio foi dizendo: você casa com um e sua irmã com outro. Ficamos apavoradas e batemos o pé para não casar."
O caso só se resolveu quando o pai de Fátima foi buscá-las no Líbano. Ela não casou com o primo, mas voltou de lá com outro casamento marcado. "Só que com o meu marido eu estou porque quis", afirma. Ela diz que levou sorte na escolha: "Não tenho do que reclamar". Fátima conta que o companheiro soube respeitar as diferenças culturais e que não se escondeu na religião para tratá-la mal. "Acredito que é uma questão de caráter. Há homens em qualquer lugar do mundo que desrespeitam suas esposas. Se não fosse verdade, as Delegacias das Mulheres não estariam cheias no Brasil."
Hanine Abdel Halim Iskandar, 17, filha de Fátima, afirma que não tem preferência por nacionalidade, pois de acordo com ela, o que manda é o coração. Contudo, tem receio em ir morar no Líbano. "Mesmo que casasse com um libanês, não moraria lá, pois são outras leis." Para as pessoas mais velhas de sua comunidade, Hanine tem idéias revolucionárias. Sonha em fazer faculdade, morar sozinha e ter o próprio carro antes de casar. "Meu pai quer me ver com um diploma, mas ele jamais me deixaria noivar com alguém que não seja muçulmano."
Ela também acredita que teria de mudar sua personalidade para viver com um libanês. "Seria um conflito." Já a irmã mais velha de Hanine, Aya Iskandar, 19, pensa diferente. "Prefiro casar com um libanês. Eles são mais respeitadores e entendem a nossa cultura. Não querem saber de ficar ou namorar", diz. Aya conheceu um primo pela internet e quando ele vier ao Brasil eles podem ficar noivos. A mãe das meninas afirma que fez um acordo com o marido. "Muitos primos de lá estavam interessados nelas, mas insisti para que a decisão seja delas", diz Fátima.
Soraia Moukalled, 26, optou por casar com um brasileiro. O marido se converteu ao islamismo para ficar com ela e assim a família aceitou a união. "Somente a minha avó foi contra no começo." O pai dela é falecido e Soraia acredita que ele não aprovaria a união em função da tradição, contudo não iria se opor. "Nunca tive vontade de casar com um árabe, acho que não daria certo pelas diferenças." Ela está casada há cinco anos e tem uma filha.



