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Caso Samuel

Diretor da Fiocruz defende maior comprometimento dos profissionais

Para o médico Pedro Barbosa, professor da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o caso do menino Samuel da Silva Souza Júnior, de 3 anos, que passou cinco dias com um projétil alojado na cabeça sem que os médicos que o atenderam percebessem, é mais um sinal de que a saúde pública precisa de cuidados. Diagnósticos equivocados, atendimentos-relâmpago e despreparo profissional devem ser combatidos urgentemente. Em entrevista à Gazeta do Povo, o especialista defende maior comprometimento por parte dos médicos, enfermeiros e assistentes, remuneração justa e condições adequadas de trabalho. (FW)

O caso de Samuel pode ser considerado um fato isolado ou acontece com muito mais freqüência do que se pode imaginar?

Situações de tamanha gravidade e que chamam a atenção como essa são absolutamente raras, mas ao mesmo tempo nos podem trazer reflexão sobre como melhorar o atendimento nos serviços de saúde em geral. No entanto, o caso não é fato isolado, mas algo presente de diversos modos no dia a dia dos serviços de saúde, ainda que a maioria sem bala no cérebro.

O que poderia ser feito a fim de se reduzir as chances de algo semelhante repetir?

Qualquer erro, por menor que seja, precisa ser tratado, analisado e a partir dele introduzir-se novos procedimentos e métodos, eliminando ou diminuindo o risco de a falha se repetir. No entanto, não temos disseminado nos serviços de saúde uma abordagem focada na qualidade. Ainda temos muita improvisação. Soma-se a isso uma sobrecarga de trabalho, em geral associada a salários e condições de trabalho precárias e outros fatores que contribuem para erros, omissões, descasos ou outras conseqüências indesejáveis.

É possível que tenha havido negligência no atendimento do menino Samuel?

A questão não é achar um culpado, mas sim analisar uma rede de causas que concorreram para o ocorrido. Convenhamos que médico nenhum está preparado para receber uma criança andando, falando, enfim em condições razoáveis de saúde, que tenha um projétil encravado no cérebro. O inusitado do caso é sem dúvida um importante atenuante.

Qual a explicação para isso?

Muito provavelmente, diversos pacientes com dor de cabeça e mal-estar em geral são recebidos da mesma maneira, sem que suas queixas fossem valorizadas ou explorados possíveis sinais e sintomas – colher a história com alguns detalhes, medir pressão, medir temperatura, perguntar pelo funcionamento intestinal, apetite, sono, doenças anteriores etc. Essa quase rotina de não valorizar queixas dos pacientes é preocupante, dado que impede na sua imensa maioria a identificação de outros "projéteis", como hipertensão, diabetes, um nódulo cancerígeno e tantas outras condições potencialmente nefastas à saúde ou já em estágios comprometedores.

Como evitar que casos semelhantes voltem a acontecer?

Não é suficiente que este país tenha cerca de 28 mil equipes de saúde da família, é preciso que seus profissionais atuem com base em qualificações profissionais aprendidas nas escolas e que estejam inseridos num sistema de permanente aperfeiçoamento, supervisão, onde protocolos de boas práticas sejam disseminados. Igualmente, esses profissionais precisam ter suporte técnico, com acesso a medicamentos, laboratórios e mesmo serviços com especialistas para tratamentos e intervenções mais sofisticadas. É preciso colocar cadeiras nos consultórios, camas para exames e tratarmos de que as consultas passem ao menos a durar 15 a 20 minutos, em vez da média atual, provavelmente inferior a 5 minutos.

O comprometimento profissional também é importante? Até que ponto o gerenciamento da saúde pública influencia?

Se o profissional de saúde – médico, enfermeiro, dentista, agente de saúde, nutricionista ou qualquer outro – não cumprir seu papel, o destino do paciente torna-se incerto. O sistema deve condicionar o seu modo de trabalho, valorizando sua formação, mas também definindo critérios, normas, rotinas, protocolos. Se a organização não elabora regras, ele faz o que supõe ser certo individualmente.

Pedro Barbosa, diretor executivo da Fiotec – Unidade de Gestão de Projetos da Fiocruz – e membro da Equipe de Coordenação da área de Formação em Gestão Hospitalar da Escola Nacional de Saúde Pública.

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