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Reforma agrária

Divisão de terras e de interesses

Constituição boliviana reacende debate sobre a função social da terra. No Brasil, entidades também querem limitar o tamanho das propriedades

Uso social da terra: no assentamento Dorcelina Folador em Arapongas, Norte do Paraná, 93 famílias criam gado, produzem leite, café e bicho-da-seda | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Uso social da terra: no assentamento Dorcelina Folador em Arapongas, Norte do Paraná, 93 famílias criam gado, produzem leite, café e bicho-da-seda (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

A nova constituição boliviana, promulgada há um mês, reacendeu a discussão entre defensores e críticos da chamada "função social da terra". Isso porque a nova carta institui, entre outros pontos polêmicos, um limite máximo para propriedades equivalente a cinco mil hectares. A lei não é retroativa, portanto não caracteriza uma reforma agrária; mas na prática um único proprietário não poderá acumular grandes lotes de terra. Ainda é cedo para dizer se o país vizinho conseguirá efetivar essa reforma, mas do lado brasileiro a mudança constitucional ressuscita a pergunta: e se a propriedade da terra fosse limitada no Brasil?

Na última sexta-feira, dirigentes de 47 entidades ligadas à reforma agrária discutiram uma proposta de emenda constitucional para limitar a área total que pessoas e empresas podem ter em território brasileiro. De acordo com a proposta, cada proprietário poderia dispor de, no máximo, 35 módulos de terra (2.450 hectares ou 2,5 mil campos de futebol).

Assim como na Bolívia e em várias partes do mundo, a distribuição do solo não é assunto novo, tampouco pacífico, porque divide interesses econômicos. No Brasil, grupos que participaram da Assembleia Constituinte de 1986 já tentaram aprovar um limite máximo de 60 módulos rurais – unidade de espaço mínimo para atividade produtiva, variável de acordo com a região – para a propriedade rural, com desapropriação sem direito à indenização para áreas inexploradas para fins agrícolas.

A ideia não foi aprovada: a maioria congressual, taxada de conservadora, manteve a "intocabilidade" e a "sacralização" da propriedade produtiva, mesmo que esta não cumpra a dita função social. "Prevaleceu apenas o conceito econômico, em detrimento das dimensões social, trabalhista e ambiental", sintetiza o ex-presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) Osvaldo Russo.

Fábrica

Na atualidade, ainda é justamente o conceito econômico que rege os discursos contrários à limitação de áreas. "A terra é como uma fábrica: ela precisa ter economia de escala para ter produtividade, para ser mais competitiva, para oferecer melhores preços", diz o assessor da diretoria da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Carlos Augusto Albuquerque.

Para ele, o caminho natural da agroindústria é continuar aglutinando terras, e as propriedades continuarem se concentrando, como já aconteceu em outros países. "A corrida para o Oeste dos Estados Unidos e a Revolução Francesa foram motivadas basicamente pela questão da terra. As duas foram um tipo de reforma agrária, mas de lá pra cá a tecnologia mudou, os mercados foram se alterando e mostram que a tendência é aglutinar cada vez mais", defende.

Distribuição

Na mesa de discussão, essa vertente voltada exclusivamente às necessidades do mercado não convence a todos. O procurador-geral do estado do Paraná, Carlos Frederico Marés, é um entusiasta da distribuição agrária, tendo no currículo vários anos de defesa da função social da terra e das causas de povos indígenas. Ele explica que a função social da terra tem como premissa que o solo provê as necessidades do ser humano e, se ele não fornecer riquezas suficientes, o país será pobre. Para conseguir manter quem trabalha na terra e também manter a própria sociedade, o Estado precisa ter meios para planejar a produção – e a melhor forma de fazer isso, de acordo com ele, é limitar a distribuição de terras. O procurador, inclusive, lamentou que a Bolívia não tenha conseguido fazer com que a nova lei seja retroativa.

"Se a terra for toda propriedade privada, é o proprietário quem diz o que vai plantar. Mas assim a sociedade não consegue se planejar, não consegue ter a visão do conjunto", argumenta o procurador. "No capitalismo o mercado manda, o problema é que às vezes o mercado se atrapalha. Na verdade o capitalismo envolve uma extraordinária dificuldade de planejamento", diz.

Mas Marés também faz questão de ressaltar que não se trata de um ideal socialista. "É uma questão de facilitar o planejamento da produção nacional. Hoje só se planeja com incentivo, injeção de capital, de financiamento, de subsídios. Com a divisão das terras, tendo propriedades não tão grandes, o país fica muito menos vulnerável a interesses e humores privados. O país, e não o mercado, será capaz de determinar o que é melhor e mais importante para a própria sociedade."

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Interatividade

O Brasil deveria seguir o exemplo da Bolívia e limitar o tamanho das propriedades rurais no país?

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