
Brasília e Curitiba - A explicação do governo para o maior blecaute já registrado no país, que atingiu 18 estados e deixou 70 milhões de pessoas no escuro na noite de terça-feira, se baseia em uma combinação de fatores climáticos. Chuva forte, ventos e raios na região de Itaberá (SP) teriam feito com que três das cinco linhas de transmissão de energia de Itaipu para o Sudeste caíssem ao mesmo tempo. Para especialistas do setor, porém, é cedo para descartar a hipótese de erro operacional.
Para comprovar a tese do governo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apresentou fotos com estruturas danificadas por descargas elétricas. O gerente de operações do órgão, Eduardo Barata, disse que não é possível dizer qual dos fatores foi preponderante para o dano e não descartou a hipótese de um raio ter atingido ao mesmo tempo as três estruturas, que ficam a 10 metros de distância uma da outra.
"O Brasil é o país onde há a maior concentração desses fenômenos e nessa região mais ainda", disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, 20 horas após o início do problema. Ele reiterou que o apagão foi motivado por um "acidente" e comparou o caso à queda de um avião. "Uma das máquinas perfeitas que a humanidade criou é o avião. E o avião também cai. Os sistemas elétricos em todas as partes do mundo têm seus acidentes."
Sobre a incapacidade de impedir que o problema que começou em São Paulo se espalhasse até o Nordeste, o gerente da ONS garantiu que o sistema atuou de maneira correta. "Os efeitos foram mais sentidos na Região Sudeste. As outras regiões sofreram quedas de energia por bem menos tempo."
O apagão de ontem foi bem maior do que o governo divulgou inicialmente. De acordo com dados divulgados pelo ONS o Brasil perdeu 28,8 mil MW (megawatts), 46% da carga do sistema interligado (todo o país menos RR, AM e AP) no momento do problema, às 22h13. Além de Itaipu, que foi totalmente desligada pela primeira vez, deixaram de funcionar as usinas nucleares de Angra 1 e 2, no Rio de Janeiro, bem como todas as hidrelétricas de São Paulo. Pelo menos 15 linhas de transmissão foram desligadas.
Inconsistência
A versão do governo esbarra em relatos de moradores de Itaberá inclusive do prefeito Sérgio de Souza Almeida (DEM) que negam que a cidade tenha enfrentado uma tempestade no momento em que começou o apagão. O município também permaneceu iluminado durante toda a noite.
Técnicos do Grupo de Eletricidade Atmosférica, do Inpe, afirmaram que as chances de um raio ter causado o apagão são mínimas. "Embora houvesse uma tempestade na região próxima a Itaberá, no Sul de São Paulo, com atividade de descargas no horário do apagão, as descargas mais próximas do sistema elétrico estavam a cerca de 30 quilômetros da subestação de Itaberá", informou o Inpe, em nota.
Operação
A possibilidade de falhas na operação da linha de transmissão humana ou de algum equipamento de controle não é descartada por quem acompanha o setor elétrico. O presidente da Copel, Rubens Ghilardi, diz que as linhas de Itaipu saíram do sistema sem que houvesse alguma avaria visível, como torres derrubadas. Como o fornecimento voltou ao normal algumas horas depois, é pouco provável que tenha havido um dano provocado por raios ou pelo vento. "Pode ter havido um problema de operação, ou em algum procedimento", diz.
O diretor executivo da Associação Brasileiras das Grandes Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), César de Barros, também aponta a hipótese de falha técnica. "Se houvesse dano material na linha, seria mais simples entender as causas. Mas do jeito que se apresenta, tem que ser feita uma análise completa. Isso é demorado, leva de dois dias a até um mês", afirmou.
Para o engenheiro eletricista Ivo Pugnaloni, diretor da consultoria Enercons e ex-diretor da Copel Distribuição, o apagão provavelmente foi causado por falhas no plano de contingência do Sistema Interligado Nacional (SIN). "Ainda não se sabe por que as cinco linhas de transmissão de Itaipu caíram. Mas, uma vez que isso ocorreu, o plano deveria isolar o problema e reduzir os danos ao mínimo."
Um dos pontos mais importantes do plano de contingência, segundo Pugnaloni, é o "sistema de alívio de carga". Sua função é "desligar" a demanda por energia em determinadas regiões, aliviando artificialmente a carga do sistema. Quando as três linhas de Itaipu "desapareceram" da rede, a demanda que elas atendiam também deveria ter sido automaticamente "derrubada" em uma ou mais regiões.
Pelas características do apagão, diz Pugnaloni, deduz-se que o sistema de alívio não funcionou. Com a demanda lá em cima e sem a energia de Itaipu, o sistema ficou sobrecarregado e entrou em colapso, com outras usinas hidrelétricas sendo "derrubadas".
O engenheiro Antônio Ivan Bastos sobrinho, professor de Engenharia Elétrica da Universidade Positivo, lembra que a falha em uma linha faria com que as duas assumissem a transmissão dessa carga. "O problema atmosférico teria de ser muito forte para tirar três das cinco linhas do ar. Isso é possível, já que não existem muitas barreiras naturais para proteger o sistema", diz.



