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Causas

E a culpa ficou com o mau tempo

Vinte horas depois do desligamento de Itaipu, governo diz que chuva forte foi motivo do apagão, mas especialistas não descartam problema operacional

Subestação de Furnas, a empresa responsável por transmitir a energia de Itaipu: especialistas afirmam que chance de raio ter atingido torres é mínima | Christian Rizzi / Arquivo da Gazeta do Povo
Subestação de Furnas, a empresa responsável por transmitir a energia de Itaipu: especialistas afirmam que chance de raio ter atingido torres é mínima (Foto: Christian Rizzi / Arquivo da Gazeta do Povo)

Brasília e Curitiba - A explicação do governo para o maior blecaute já registrado no país, que atingiu 18 estados e deixou 70 milhões de pessoas no escuro na noite de terça-feira, se baseia em uma combinação de fatores climáticos. Chuva forte, ventos e raios na região de Itaberá (SP) te­­riam feito com que três das cinco li­­nhas de transmissão de energia de Itaipu para o Sudeste caíssem ao mesmo tempo. Para especialistas do setor, porém, é cedo para descar­­tar a hipótese de erro operacional.

Para comprovar a tese do governo, o Operador Nacional do Siste­­ma Elétrico (ONS) apresentou fotos com estruturas danificadas por descargas elétricas. O gerente de operações do órgão, Eduardo Ba­­rata, disse que não é possível dizer qual dos fatores foi preponderante para o dano e não descartou a hipótese de um raio ter atingido ao mesmo tempo as três estruturas, que ficam a 10 metros de distância uma da outra.

"O Brasil é o país onde há a maior concentração desses fenômenos e nessa região mais ainda", disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, 20 horas após o início do problema. Ele reiterou que o apagão foi motivado por um "acidente" e comparou o caso à queda de um avião. "Uma das máquinas perfeitas que a humanidade criou é o avião. E o avião também cai. Os sistemas elétricos em todas as partes do mundo têm seus acidentes."

Sobre a incapacidade de impedir que o problema que começou em São Paulo se espalhasse até o Nordeste, o gerente da ONS garantiu que o sistema atuou de maneira correta. "Os efeitos foram mais sentidos na Região Sudeste. As outras regiões sofreram quedas de energia por bem menos tempo."

O apagão de ontem foi bem maior do que o governo divulgou inicialmente. De acordo com dados divulgados pelo ONS o Brasil perdeu 28,8 mil MW (megawatts), 46% da carga do sistema interligado (todo o país menos RR, AM e AP) no momento do problema, às 22h13. Além de Itaipu, que foi totalmente desligada pela primeira vez, deixaram de funcionar as usinas nucleares de Angra 1 e 2, no Rio de Janeiro, bem como todas as hidrelétricas de São Paulo. Pelo menos 15 linhas de transmissão foram desligadas.

Inconsistência

A versão do governo esbarra em relatos de moradores de Itaberá – inclusive do prefeito Sérgio de Sou­­za Almeida (DEM) – que negam que a cidade tenha enfrentado uma tempestade no momento em que começou o apagão. O município também permaneceu iluminado durante toda a noite.

Técnicos do Grupo de Ele­­tri­­cidade Atmosférica, do Inpe, afirmaram que as chances de um raio ter causado o apagão são mínimas. "Embora houvesse uma tempestade na região próxima a Ita­­berá, no Sul de São Paulo, com atividade de descargas no horário do apagão, as descargas mais próximas do sistema elétrico estavam a cerca de 30 quilômetros da subestação de Ita­­berá", informou o Inpe, em nota.

Operação

A possibilidade de falhas na operação da linha de transmissão – humana ou de algum equipamento de controle – não é descartada por quem acompanha o setor elétrico. O presidente da Copel, Ru­­bens Ghilardi, diz que as linhas de Itaipu saíram do sistema sem que houvesse alguma avaria visível, como torres derrubadas. Como o fornecimento voltou ao normal algumas horas depois, é pouco provável que tenha havido um dano provocado por raios ou pelo vento. "Pode ter havido um problema de operação, ou em algum procedimento", diz.

O diretor executivo da Associa­­ção Brasileiras das Grandes Em­­presas de Transmissão de Energia Elé­­trica (Abrate), César de Barros, também aponta a hipótese de falha técnica. "Se houvesse dano material na linha, seria mais simples entender as causas. Mas do jeito que se apresenta, tem que ser feita uma análise completa. Isso é demorado, leva de dois dias a até um mês", afirmou.

Para o engenheiro eletricista Ivo Pugnaloni, diretor da consultoria Enercons e ex-diretor da Copel Distribuição, o apagão provavelmente foi causado por falhas no plano de contingência do Sistema In­­terligado Nacional (SIN). "Ainda não se sabe por que as cinco linhas de transmissão de Itaipu caíram. Mas, uma vez que isso ocorreu, o plano deveria isolar o problema e reduzir os danos ao mínimo."

Um dos pontos mais importantes do plano de contingência, se­­gundo Pugnaloni, é o "sistema de alívio de carga". Sua função é "desligar" a demanda por energia em determinadas regiões, aliviando artificialmente a carga do sistema. Quando as três linhas de Itaipu "de­­sapareceram" da rede, a de­­man­­da que elas atendiam também deveria ter sido automaticamente "derrubada" em uma ou mais regiões.

Pelas características do apagão, diz Pugnaloni, deduz-se que o sistema de alívio não funcionou. Com a demanda lá em cima e sem a energia de Itaipu, o sistema ficou sobrecarregado e entrou em colapso, com outras usinas hidrelétricas sendo "derrubadas".

O engenheiro Antônio Ivan Bastos sobrinho, professor de Engenharia Elétrica da Univer­­sidade Positivo, lembra que a falha em uma linha faria com que as duas assumissem a transmissão dessa carga. "O problema atmosférico teria de ser muito forte para tirar três das cinco linhas do ar. Isso é possível, já que não existem muitas barreiras naturais para proteger o sistema", diz.

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