Vou ao Garibaldis e Sacis há muitos anos. Quase que desde o começo. E também me batem saudades dos tempos em que eram poucos. Só que as coisas mudam e o bloco, mais do que crescer, se democratizou
Se democratizando, como é lindo que seja, todo mundo é bem vindo. A gente pode até reclamar dos "manos", mas eles também podem e têm o direito de gostar do que a gente gosta. A gente pode até torcer o nariz tipicamente curitibano, dizendo que existem figuras lá na festa que não seriam convidadas para uma festa na nossa casa. Mas a Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião! Todo mundo tem direito! Então pare de coisa, carnaval é assim. Quer bloquinho seleto, faça o seu. No Rio tem centenas, cada um tem direito de criar o seu.
Sobre o tumulto. Muita gente junta, pode dar rolo. Jogo de futebol é assim, show de rock é assim, festa de ano novo na praia é assim. O pessoal do bloco já havia procurado apoio policial que, se houve, eu não vi com número digno de nota. E então o Garibaldis havia dito: todo mundo cuidando de todo mundo. Não significa cuidar da sua amiga que foi com você no carnaval, significa olhar todo mundo como companheiro de folia. Significa reconhecer o diferente como digno do seu respeito. Significa ser gente!
Deve mesmo ter havido um pessoal que fez alguma besteira lá no alto do Largo. Sim, em alguns pontos a gente sente o cheiro de maconha. Sim, ficamos ligados com bolsas e evitamos tumultos e confusões. Sim, tem gente que entorta o caneco e faz besteira, principalmente aquele pessoal que vai para olhar ao invés de pular. Pulando o álcool evapora. Mas tudo bem, até os chatos e o pessoal que nem gosta de carnaval são bem-vindos.
Agora, o que parece claro e cristalino é que a reação da Polícia Militar foi arbitrária, desproporcional e ofensiva à população. Parece claro também que os rapazes da PM (sim, rapazes, devem lá ter os seus 22, 25 anos, podiam estar brincando o carnaval se não estivessem a serviço) estavam até mesmo nervosos e pouco à vontade com aquela ação. Mas mandaram que eles fizessem daquele modo. E eles fizeram, e tiraram aquela raiva toda sei lá de onde.
As instituições têm que se modernizar e atender à demanda de uma sociedade que não para. Repito: não adianta querer fazer o que acontece hoje caber no bloquinho de 13 anos atrás. Tem que dar suporte para o que o povo faz pacificamente. Tem que ter preparo para recolher o burrão jacu que jogou garrafa na viatura sem bater nem mesmo nele. Não, não sou policial, não sei como é lá na frente quando o bicho pega. Mas sei como deve ser. Na teoria e na lei.
Quem não aguenta com mandinga não carrega patuá. Quem não tem competência, não se estabelece ou, se tem problema, desce o sarrafo.
Carolina de Castro Wanderley é advogada, especialista em Direito Cultural e foliã há duas décadas.







