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História

Escravos ajudaram a propagar o catolicismo pelo Brasil

Igreja do Rosário, em Curitiba, é um dos templos erguidos por irmandades negras no país

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Vídeo (Foto: TV Paranaense)

A menos que o fiel ou visitante mais atento leia a placa na entrada da Igreja do Rosário, no Largo da Ordem, centro histórico de Curitiba, dificilmente saberá que o templo representa um dos fatos mais significativos dos quase 300 anos de escravidão no Brasil, cuja abolição, assinada pela princesa Isabel, comemora hoje 119 anos. A igreja, uma das mais importantes da cidade, foi financiada por uma irmandade negra formada por escravos alforriados ou que possuíam alguns bens no século 18.

Mesmo assim, a informação na placa é superficial. Relativos à origem, consta apenas o próprio nome do templário e a data: "Igreja do Rosário dos Pretos de São Benedito. Segunda igreja construída em Curitiba, no século 18. Já funcionou como matriz. A atual construção é de 1946".

Conforme explica o historiador e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Carlos Alberto Medeiros Lima, é difícil encontrar no Brasil do período escravocata uma freguesia, vila ou cidade onde não haja igreja bancada por uma irmandade negra. "Essas irmandades auxiliaram a expandir o catolicismo no Brasil, pois ocupavam o espaço que o sacerdócio oficial, por falta de pessoal, não tinha como preencher", ressalta Lima. Mesmo com tal importância – eram as únicas intituições negras juridicamente reconhecidas à época, com estatutos próprios –, fora do meio acadêmico pouco se sabe dessas irmandades.

Além de Curitiba, existem ainda no Paraná outras três igrejas oriundas de confrarias negras. São elas a do Glorioso São Benedito, em Morretes, a de São Benedito, em Antonina, e a de Nossa Senhora do Rosário, em Paranaguá. Todas do século 18. Entretanto, houve confrarias também na Lapa – de onde se originou a festa do Congado – e em Castro, entre outras cidades.

O também historiador Sílvio Adriano Weber, 29 anos – envolvido com o assunto desde a conclusão do curso de História na UFPR em 2005, quando pesquisou sobre a confraria curitibana e agora pesquisando a de Morretes –, explica que as irmandades existem desde o século 15 em Portugal. São sempre de caráter católico e com um santo de devoção. No caso das negras, geralmente Nossa Senhora do Rosário ou São Benedito. O pesquisador explica que no Brasil elas foram adaptadas, permitindo que escravos também tivessem representatividade.

O argumento para que isso acontecesse, aponta Weber, está no fato de que a relação senhor-escravo não vivia apenas da política do chicote. Ainda que fosse tensa, havia espaço para negociação entre as partes. "Apenas castigar os escravos era pedir para acontecer revoltas. Portanto, eles às vezes conseguiam direitos, como descanso semanal, um festejo e até o acúmulo de algum dinheiro." Para isso, os escravos de irmandades tinham qualidades especiais. Eram artesãos, pedreiros, barbeiros, alfaiates, entre outros ofícios que exigiam qualificação. "Eles eram chamados de escravos de ganho. Ou seja, podiam sair da propriedade do senhor para trabalhar e recebiam dele parte do dinheiro pago pelo serviço que prestavam."

No Brasil, ainda há outra curiosidade sobre as irmandades. Os brancos podiam participar das confrarias negras – mas o contrário era proibido. Um exemplo, cita Weber, ocorreu em Morretes, onde o vigário Antônio Roiz de Carvalho – que era proprietário de 17 escravos – chegou a ser presidente da Irmandade do Glorioso São Benedito, em 1836. Entretanto, geralmente os brancos cumpriam um papel específico nessas confrarias: o de escrivão. "A tradição negra vem da tradição oral africana. Portanto, os irmãos negros não sabiam escrever e não tinham como registrar os documentos da irmandade", diz o pesquisador.

O principal papel das irmandades era ajudar mutuamente os confrades e suas famílias quando um dos integrantes adoecesse, caísse na pobreza ou morresse. "Assim como continua sendo hoje, os gastos com funeral eram altos. Portanto, a irmandade bancava o cortejo com toda pompa: o melhor esquife (caixão) e, muitas vezes, com o confrade sendo enterrado dentro da própria igreja", explica Weber. Além disso, aponta o historiador, muitas vezes os confrades arrecadavam dinheiro para comprar a liberdade dos irmãos que ainda eram escravos.

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