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Caso João Hélio

Especialistas defendem proteção para assassino

Justiça havia incluído Ezequiel Lima em programa do governo federal, mas voltou atrás; 3,7 mil crianças e adolescentes foram atendidos desde 2003

Ezequiel Lima cumpriu três anos de medida socioeducativa em uma instituição para adolescentes | André Az/Agência O Dia-AE
Ezequiel Lima cumpriu três anos de medida socioeducativa em uma instituição para adolescentes (Foto: André Az/Agência O Dia-AE)

A inclusão ou não de Ezequiel Toledo de Lima, 19 anos, um dos assassinos do menino João Hélio, no Programa de Proteção às Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), levantou, nesta semana, uma discussão sobre os parâmetros e o funcionamento desse serviço, que já atendeu 3.731 pessoas desde sua criação, em 2003. A polêmica aumentou depois que jornais cariocas divulgaram que Lima e a família teriam sido enviados à Suíça. A notícia foi corrigida, com a informação de que eles estavam no programa por decisão judicial, mas estavam dentro do país. Treze dias depois do anúncio, a Justiça voltou atrás e Lima foi provisoriamente excluído do programa. Para especialistas, o caso de Lima se enquadra no programa de proteção.

A repercussão negativa foi tanta que o governo federal, principal responsável pelo programa, resolveu frear a divulgação de informações sobre o serviço, limitando aos dados divulgados em seu site. O advogado de Lima, Carlos Nicodemos, também resolveu se calar e não falar no assunto até que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro se posicione definitivamente sobre o tema. Nicodemos é o coordenador no Rio de Janeiro da Or­ganização de Direitos Humanos Projeto Legal, entidade responsável justamente por fazer a ponte entre o PPCAAM e os beneficiários do programa no estado.

Crime hediondo

Os próprios gestores do PPCAAM teriam mostrado preocupação em relação à inclusão do jovem no programa, mas houve quem viesse em defesa de Lima. "Mui­tos jovens que cumprem medidas socioeducativas de privação de liberdade acabam executados quando saem da internação. Os programas de proteção servem exatamente para isso", afirmou a diretora-adjunta da organização não governamental Justiça Global, Sandra Carvalho.

De acordo com o coordenador do Núcleo de Estudos da Cida­dania, Conflito e Violência Ur­­bana da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o sociólogo Michel Misse, é dever do Estado defender o jovem que foi ameaçado quando estava em sua tutela. "Foi uma tragédia o que aconteceu, mas não podemos permitir que se cometa outro crime diante disse", opinou. Lima, de acordo com familiares, teria sido ameaçado de morte dentro de uma unidade do Depar­­tamento Geral de Ações Socio­­educativas (Degase), onde ele teria sido agredido e violentado duas vezes.

Durante a polêmica, o advogado da família de João Hélio, Gilberto Pereira da Fonseca, foi contundente. "Esta pessoa ficou três anos internada e foi solta após um crime hediondo. Agora, entre todas as pessoas ameaçadas de morte no país, ele desfrutará de casa e nova identidade. Lamento a atitude", disse. O garoto foi morto em 2007, durante um assalto, quanto tinha 6 anos. Lima e quatro comparsas tomaram o carro da mãe de João Hélio e a impediram de retirar o filho do veículo. Ele ficou preso ao cinto de segurança e morreu ao ser arrastado por sete quilômetros.

O programa

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) não comenta o caso. Informa apenas que o PPCAAM foi criado em 2003, é executado hoje em sete estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Pará, Pernambuco e Alagoas) e no Distrito Federal e se encontra em fase de implantação na Bahia, no Rio Grande do Sul e no Paraná. O seu principal objetivo é proteger crianças e adolescentes que vivam em local de risco e tenham sido ameaçadas. Das 3.731 pessoas que estiveram sob a sua proteção, 1.501 eram crianças e adolescentes e 2.230 familiares deles. Em 2009, o PPCAAM atendeu 1.383 pessoas, sendo 538 crianças e adolescentes e 845 familiares.

O perfil do protegido pelo programa é do sexo masculino (79%), negro (75%), com idade entre 15 e 17 anos (59%), com ensino fundamental incompleto (95%), morador de capital (63%) e com renda familiar até um salário mínimo (57%). De acordo com dados da SEDH, 75% dos protegidos pelo PPCAAM têm a mãe como principal referência familiar. E o mais importante: 60% entraram para o programa porque foram ameaçados devido ao envolvimento com o tráfico. A principal porta de entrada do programa tem sido os Conselhos Tutelares e o Poder Judiciário. O protegido tem ficado, em média, seis meses no programa.

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