A deficiência na captação de órgãos para transplantes no Paraná, constatada por uma auditoria do Ministério da Saúde, prejudica particularmente o número de cirurgias realizadas em crianças. A falta de comunicação entre os estados sobre potenciais doadores, identificada pelo Tribunal de Contas da União e revelada na edição do último domingo da Gazeta do Povo, interrompe processos dolosos, mas fundamentais para que o sistema funcione, como o consentimento da família para a doação de órgãos de pacientes infantis. Sem infra-estrutura adequada para diagnóstico de morte encefálica, as equipes médicas se limitam a comunicar o óbito aos parentes. Ponta Grossa, por exemplo, é um pólo médico que atende um milhão de pessoas e não dispõe de catéter infantil para a realização da arteriografia, que poderia confirmar a falência cerebral. Por conta disso, este ano pelo menos um caso de suspeita de morte encefálica deixou de ser diagnosticado na cidade.
O maior problema da falta de órgãos infantis recai sobre os pacientes cardíacos. Para o transplante, o doador não pode ter mais do que o dobro do peso do receptor. Assim, crianças com menos de 30 quilos têm dificuldade de conseguir a cirurgia. Sem a existência efetiva de uma lista integrada que reúna os possíveis receptores de todos os estados brasileiros também acontece, segundo médicos consultados pela Gazeta do Povo, da doação não chegar a ser realizada por não haver nenhum receptor compatível no estado de origem. Daí, a média é de apenas oito transplantes cardíacos infantis por ano no Brasil. O programa de transplante cardíaco do Hospital Infantil Pequeno Príncipe foi iniciado em 2004 e desde então realizou três cirurgias. Mas há um ano o hospital não faz transplante cardíaco, de acordo com o médico Leonardo Cavadas da Costa Soares, responsável pelo programa.
A falta de doadores também compromete a sobrevida de crianças com problemas renais. E nesse caso não é o tamanho do órgão que representa o maior empecilho. Crianças acima de dez quilos já podem receber órgãos de adultos. O que acontece é que os pacientes infantis têm prioridade na lista, mas por conta da chance maior de receber doação de um adulto vivo como pai e mãe o número de transplante de doadores cadáveres é muito pequeno. De acordo com a chefe do setor de nefrologia pediátrica do Pequeno Príncipe, Rejane Menezes, em menos de 10% das cirurgias realizadas a criança recebe órgão de doador cadáver.
Atualmente, 80 crianças estão em tratamento renal no hospital e a preocupação é maior com aquelas que não têm compatibilidade com parentes. Dependentes da lista única, elas acabam sofrendo as conseqüências do uso prolongado da hemodiálise.
A Secretaria de Estado de Saúde não informou, apesar de ser procurada diversas vezes pela Gazeta do Povo, quantas crianças aguardam na fila de transplantes, quantas cirurgias infantis foram realizadas nos últimos dois anos e se a prioridade infantil na lista de espera está sendo respeitada.



