Denúncias de extorsão e exploração sexual infantil levaram à prisão, ontem, de onze policiais civis, incluindo dois delegados. Outros três investigadores continuam foragidos e devem se apresentar na próxima segunda-feira. Todos são acusados de simular flagrantes relacionados a uma rede de prostituição infantil e criar provas para subornar homens que abusariam de meninas. "Eu estou enojado com a ação desses criminosos travestidos de policiais", afirmou o secretário de Estado da Segurança Pública (Sesp), Luiz Fernando Delazari.
Ao contrário do que normalmente ocorre quando pedófilos são presos, casos em que a polícia avisa a imprensa e faz a apresentação dos bandidos para que possam ser inclusive fotografados, desta vez nem os nomes dos envolvidos foram divulgados. A explicação apresentada pelo secretário, em coletiva na tarde de ontem no Palácio Iguaçu, foi a de que foi decretado sigilo de Justiça sobre a investigação e o inquérito, por ser um caso que envolve menores. "Por isso temos restrição quanto à divulgação dos nomes dos acusados", disse o secretário.
As únicas informações referentes aos acusados repassadas pela Sesp foram os cargos. Além dos dois delegados, o esquema tinha a participação de nove investigadores, um escrivão e dois agentes administrativos, todos lotados nos distritos referentes aos bairros São Lourenço, Hauer e Santa Felicidade. Os policiais responderão a processos criminal e administrativo e devem ser expulsos da corporação.
As prisões ocorreram a partir das 6 horas de ontem, em uma ação coordenada pela Corregedoria da Polícia Civil do Paraná e batizada como "Operação Navalha na Carne". A lista de crimes dos quais os policiais são acusados inclui concussão, extorsão, formação de quadrilha, corrupção, exploração sexual infanto-juvenil, corrupção de menores, estupro e atentado violento ao pudor. Os 14 mandados de prisão foram expedidos pela Vara de Inquéritos de Curitiba.
Esquema
O esquema tinha início em salas de bate-papo. Uma moça, que está foragida, buscava "clientes" em conversas pela internet. Os escolhidos geralmente eram homens entre 40 e 50 anos, de classe média alta. A mulher mostrava fotos de meninas nuas para despertar o interesse. Encontros eram marcados no apartamento da moça, no bairro Fazendinha, ou em motéis e, antes que o abusador iniciasse qualquer ato sexual com as garotas, era simulado um flagrante. Policiais civis invadiam o quarto, filmando e fotografando o homem, já nu.
Todos, inclusive as meninas, eram levados para uma delegacia, onde acontecia a extorsão. Para que não fosse preso, o abusador deveria pagar uma quantia entre R$ 5 mil e 30 mil. Pelo fato de todos os envolvidos estarem cometendo algum crime, o esquema nunca havia sido denunciado. Até que, em meados de abril, um engenheiro se negou a pagar o suborno e o filho do acusado denunciou a ação policial.
As investigações apontam que o esquema era praticado em Curitiba há pelo menos um ano, mas não se sabe quantas vezes ele teria sido executado. No mínimo quatro meninas entre 10 e 14 anos foram aliciadas. A irmã da recrutadora de "clientes", de 14 anos, seria responsável por incentivar outras garotas de escolas dos bairros Portão e Fazendinha com a promessa de que elas ganhariam "muito dinheiro" para cada golpe, elas recebiam entre R$ 50 e R$ 150. De acordo com a delegada corregedora Charis Negrão Tonhozi, as investigações continuam para que sejam identificadas outros envolvidos. Aqueles que acabaram "vítimas" de extorsão também serão procurados e processados.



