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A influenciadora Aline Bardy Dutra, conhecida nas redes sociais como “Esquerdogata”, voltou a alimentar sua conta no Instagram nesta sexta-feira (23). Em um longo vídeo que gravou após meses de internação psiquiátrica, ela fez o primeiro pronunciamento público mais demorado desde que foi presa por desacato e racismo durante uma abordagem policial em outubro de 2025 no interior de São Paulo.
Aline confirmou que cometeu o crime de desacato, já que resistiu a uma ordem de prisão proferida para um policial militar (PM). No entanto, afirma que não cometeu injúria racial por não ter tido a intenção de ofender o PM ao dizer que seria “triste” o policial, que é negro, abordar um outro negro.
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Ela classificou sua afirmação como uma “crítica social” à abordagem do PM a uma pessoa na rua. “Era uma crítica, um lamento pela violência institucional e ‘intrarracial’”, justificou.
Para a influenciadora, o desacato aconteceu no momento em que o policial lhe dá voz de prisão por injúria racial. “Aí eu surto, porque sabia que não tinha cometido este crime”, afirmou.
Aline perguntou ao PM se ele conhecia a Europa
Aline também refuta as acusações de classismo por ter, entre outras coisas, perguntado ao policial se alguma vez ele tinha ido à Europa e que o valor dos seus calçados seria o mesmo da viatura. "Minha sandália vale o carro de vocês", disse ela, enquanto era presa.
Ela afirma não ter sido classista, mas que estava “desesperada” e com o “poder de decisão afetado pelo álcool.”
“Economicamente, eu e o policial estamos no mesmo nível”, afirmou. Aline tem uma loja virtual e tinha cargo no município como professora infantil.
Ela ainda afirma que se sentiu muito decepcionada consigo mesma por ter proferido palavras ofensivas ao policial.
“Se você se sentiu decepcionado você não imagina o quanto eu me senti decepcionada comigo”, disse.
Ainda que admita ter errado no episódio e dizer que vai responder judicialmente pelos fatos e acatar a decisão judicial que advir deles – e também de pedir desculpas ao policial – a influenciadora manteve um tom crítico com as autoridades.
Ela disse que seu celular foi apreendido sem motivos, que jamais foi periciado por não ter tido ordem judicial para tanto e que foi impedida de ir ao banheiro na delegacia, um direito “básico”. “Isso fez com que eu urinasse na roupa, mais de uma vez”, disse.
A reportagem da Gazeta do Povo entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pùblica de São Paulo (SSP-SP) para averiguar estas informações e publicará a posição da pasta assim que retornar.
Relembre o caso
As informações sobre o fato policial foram publicadas em outubro de 2025 em diversos sites e TVs e confirmadas pela reportagem da Gazeta do Povo por meio de nota da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP):
"Uma mulher de 45 anos foi presa após desacatar policiais militares, na madrugada do sábado (25), na Rua Florêncio de Abreu, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Os PMs realizavam uma fiscalização de trânsito, quando abordaram a mulher, que passou a resistir e ofender os agentes, inclusive com ofensas raciais. A mulher foi detida e levada à delegacia, onde permaneceu à disposição da Justiça. O caso foi registrado na Central de Polícia Judiciária da cidade como desacato, resistência e preconceito de raça e cor."
A SSP elabora suas informações com base no BO elaborado pela Polícia Civil.
Filmou abordagem da PM
A abordagem teria ocorrido depois que ela presenciou um PM negro abordar uma outra pessoa negra. Ela teria começado a filmar os agentes policiais dizendo que eles só abordaram o homem por ser negro. Nos vídeos, Aline aparenta estar sob efeito de substâncias psicoativas e com uma fala amolecida.
Ela foi levada a uma delegacia de polícia e, depois das formalidades, liberada, com a condição de realizar um tratamento psiquiátrico e cumprir medidas cautelares, como não sair de casa à noite. A reportagem tentou contato com a influenciadora na época e não teve resposta.
Seus advogados de defesa, a dupla Douglas Marques e Roberto Bertholdo, divulgaram um comunicado à imprensa em que dizem que ela está arrependida e constrangida. A nota, no entanto, tenta justificar o incidente dizendo que a PM paulista muitas vezes comete excessos.
Militância e licença
Aline era filiada ao Partido dos Trabalhadores desde maio de 2022. Com o incidente, o diretório do partido iniciou um processo para desligá-la, mas não há informações sobre o andamento e nem ela comentou nada. Apesar de filiada, nunca exerceu funções no partido.
Afastada de um cargo público que tinha como educadora infantil, ela mantém uma loja na internet, na qual se apresenta como "comunicadora, professora e militante política com mais de 800 mil seguidores nas redes sociais".
Ela diz ainda que é "referência em análises críticas, conteúdos sobre política e debates que unem informação e mobilização, e em que "cada peça é pensada para carregar não apenas estilo, mas também significado".
Reação à prisão de Bolsonaro
A influenciadora manteve uma postura de recolhimento desde o episódio. No entanto, no dia 22 de novembro, o da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, levado à Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília, ela publicou um conteúdo em áudio para celebrar.
“A democracia venceu e o Bolsonaro? O Bolsonaro foi para a Papuda, é alegria demais”, disse Aline, ignorando que o local da custódia, na época, era a sede da PF, e não o complexo penitenciário.






