O evento promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU) que começa hoje em Curitiba tem entre seus objetivos mudar a idéia de que conservar o meio ambiente é deixar intocada uma área de mata nativa no meio do nada. Incluir as ações urbanas no debate sobre a preservação ecológica é o mote de "Cidades e Biodiversidade: Atingindo a Meta 2010", que reúne diplomatas, ambientalistas e principalmente prefeitos de pelo menos 20 cidades, no Salão de Atos do Parque Barigüi, até quarta-feira. Entre as presenças confirmadas estão a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o secretário da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), Ahmed Djoghlaf.
Há um ano, Curitiba respirava ares semelhantes. A cidade abrigou em março de 2006 a 8.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8), com quatro mil pessoas de mais de cem nacionalidades participando de discussões que visavam a mudar o texto original da CDB, que nasceu no Brasil durante a Rio-92. Além de celebrar o aniversário da COP8, o evento é o primeiro passo para a realização da COP9, que acontecerá em Bonn, na Alemanha, em 2008. Hoje, a responsabilidade das cidades na preservação do ambiente urbano não integra as discussões da CDB, que tem 147 países e mais a União Européia como signatários.
Para a diretora de Departamento de Pesquisa e Monitoramento Ambiental de Curitiba e coordenação técnica do evento, Dayse Cristina Senna, a cidade concentra as características ideais para a inserção da ecologia urbana nas discussões preservacionistas. O primeiro plano-diretor, que data de 1942, já estabelecia restrições e metas voltadas para a conservação, dignas de, se tivessem sido seguidas ao pé-da-letra, dar à capital paranaense o título de cidade ecológica. A partir da década de 70 quando falar em ecologia era coisa para poucos preocupações ambientais passaram a fazer parte do planejamento de Curitiba.
A arborização, os parques, os 51 metros quadrados de área verde por habitante (resultando, por exemplo, em maior permeabilidade do solo urbano) e as iniciativas de estímulo ao transporte público e à coleta seletiva de lixo são apontadas por Dayse como ações curitibanas que justificam a presença da cidade no rol das que mais demonstram efetivamente as preocupações ambientais. Durante o "Cidades e Biodiversidade", a prefeitura irá lançar o projeto Biocidade, que apresenta novas ações, como a recompensa financeira por áreas urbanas bem protegidas e o paisagismo com espécies nativas. No cenário árido e artificial das metrópoles é que a discussão sobre a redução de biodiversidade ganha impacto e resolutividade, já que a população vive maciçamente nas cidades. "Na COP8, o conceito era mais macro. Agora será essencialmente urbano", avalia a coordenadora.
Dois grupos de trabalho serão formados e devem discutir um texto a ser apresentado na COP9, para que as responsabilidades urbanas sejam incluídas nos termos do acordo internacional. Durante o evento, experiências bem-sucedidas em diversas cidades do mundo serão apresentadas aos participantes. Ao final do evento, os participantes terão acesso à Carta de Curitiba uma proposta de envolver as cidades no cumprimento das metas de redução da perda da biodiversidade. "Daqui, deve sair uma declaração para apresentar reivindicações e compromissos das autoridades locais", explica Dayse. Marcado por debates técnicos e diplomáticos, o evento não é aberto para a população.







