Ficar doente é uma preocupação a mais para a pescadora aposentada Pedrina França Galdina, 88 anos, moradora da Vila de Poruquara, uma das 37 comunidades existentes no município de Guaraqueçaba, no litoral do estado. O motivo não é o problema de saúde em si ou os gastos com medicamentos, mas o fato de morar a quatro quilômetros de distância do centro, onde está localizado o único hospital da cidade (outro está em construção), e cujo o acesso é possível somente por meio de embarcações. "Só vou ao médico quando fico muito ruim mesmo", diz.
A dificuldade de utilização de serviços de saúde não é a única enfrentada pelas 8,6 mil pessoas que vivem no município. Por preservar um dos poucos remanescentes da Floresta Atlântica no estado distribuído em quatro unidades de conservação ambiental (veja mais no mapa) , Guaraqueçaba atrai muitos projetos. As ações desenvolvidas, entretanto, limitam-se à preservação do meio ambiente, não contemplando os problemas da população.
A falta de atenção ao social é visível quando se analisa o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade: ela está entre os 23 municípios do estado com pior IDH. Na classificação geral ocupa a 376.º colocação entre as 399 cidades do Paraná. Com isso sobram carências nas comunidades. No Rio Verde, localizado a 12 quilômetros do centro e onde vivem cerca de 60 famílias, muitos são os relatos de pessoas socorridas às pressas. O posto de saúde não dá conta de atender as emergências e os moradores reclamam que não há medicamentos nem médico para oferecer consultas. O agricultor João Evangelista Gonçalves da Veiga, 44 anos, dono de um caminhão e um dos poucos a possuir veículo próprio por ali, conta que já chegou a dar carona a um vizinho que teve um ataque cardíaco na estrada. "A sorte é que acabamos encontrando com uma ambulância por um acaso", diz.
Educação
Na extensa Guaraqueçaba, com 2,3 mil km2 de área territorial, crianças e jovens precisam driblar dificuldades para ocupar os bancos da sala de aula. Só há dois colégios estaduais que oferecem ensino médio no município e que ficam localizados no centro e na localidade de Tagaçaba. Para os meninos e meninas da localidade de Poruquara, que estudam no centro, isso significa ter de ficar sem almoço e retornar para casa somente por volta das 20 horas. "Nem sempre tenho dinheiro para fazer um lanche", reclama Willian Miranda, 16 anos.
Para estudar, Willian enfrenta uma hora e meia de viagem dentro de uma embarcação, o que implica sair de casa somente com o café da manhã, e caminha mais 30 minutos para só então chegar à escola. O irmão dele, Márcio, 15 anos, não suportou a maratona e desistiu dos estudos. "É difícil porque muitas vezes passamos fome mesmo. Mas acho que tudo isso vale a pena porque só com estudo é que conseguimos ser alguém", comenta Willian.
Já os pequeninos da vila nem escola têm. A sala de aula municipal, que antes oferecia estudo a crianças de 1.ª a 4.ª séries, está fechada e abandonada há dois anos, desde que a professora normalista que morava no local faleceu. "Até agora ninguém veio para substituí-la e as nove crianças precisam ir a Tibicanga (localidade que fica a 20 minutos)", diz a mãe de Willian, Niva Miranda, 42 anos.
O descaso com a infra-estrutura de educação não é exclusividade de Poruquara. Na comunidade do Rio Verde a escola foi transferida para a casa do professor Antônio Gonçalves da Silva, que também preside a Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Rio Verde. Em dois cômodos improvisados, 40 crianças têm aulas de 1.ª a 4.ª séries. A transferência foi autorizada pela prefeitura e motivada pela mobilização dos pais, que há dois meses chegaram à conclusão de que a sede da escola não tinha condições para funcionar. Até hoje, nenhuma reforma foi iniciada no imóvel. "Preferia que minhas filhas tivessem aula na escola. O problema é se esquecerem e isso continuar assim para sempre", diz a dona de casa Vandaviana Rosa, 33 anos, mãe de Neidiane, 8 anos e Verônica, 7 anos.



