
Alternativa para o tratamento de dependentes químicos, as comunidades terapêuticas do Paraná têm encontrado dificuldades para conseguir a licença sanitária documento obrigatório para que as instituições concorram aos recursos do programa do governo federal Crack, É Possível Vencer. De acordo com a Vigilância Sanitária Estadual, de 143 vistorias realizadas no ano passado, apenas 48 resultaram na emissão do laudo.
INFOGRÁFICO: Veja o números de vagas contratadas pelo Crack, É possível Vencer
Segundo Paulo Santana, coordenador do órgão no estado, os problemas encontrados nas 95 instituições reprovadas em 2012 vão desde falhas nos processos de trabalho até instalações inadequadas. "Os planos de recuperação não são seguidos e muitas das instituições sequer o têm. Além disso, às vezes as condições de higiene encontradas foram insatisfatórias e os tamanhos das instalações são inferiores à capacidade atendida".
A baixa aprovação pode explicar a dificuldade do Ministério da Justiça em contratar as 10 mil vagas prometidas pelo programa. De acordo com a pasta federal, 43 instituições paranaenses se cadastraram, mas apenas sete foram habilitadas e irão oferecer 147 vagas. No país a situação é parecida: de 482 comunidades terapêuticas inscritas, apenas 61 foram contratadas (13% do total) e vão oferecer 1.382 vagas.
Auxílio
O programa prevê ajuda de R$ 1 mil por vaga destinada a adultos e R$ 1,5 mil para criança, adolescente ou mãe em período de amamentação. Cada instituição pode solicitar auxílio para até metade de sua capacidade, desde que a quantidade não ultrapasse o limite de 60 vagas.
Para Flávio Roberto Almeida Lemos, presidente da Compacta associação que reúne comunidades terapêuticas de Curitiba e região , as instituições precisam de recursos para infraestrutura. "Não adianta ter dinheiro para vagas sem verbas voltadas à estruturação. Sem isso, essas comunidades jamais conseguirão atingir o padrão exigido pelo programa", justifica Lemos, que também é responsável pela Casa de Recuperação Água da Vida (CRAVI).
Na visão do coordenador da Vigilância Estadual, porém, esse problema é passageiro. "O ano passado foi atípico em número de reprovações. Como a norma é recente, os estabelecimentos ainda estão se adaptando às exigências", argumenta Santana.
A norma a que Santana se refere é o Roteiro de Inspeção, ferramenta da Secretaria Estadual de Saúde elaborada com base na Resolução 029/2011 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2011.
Dependentes buscam recomeço em comunidade
Dependentes de drogas há dez anos, N.A.N., 20, e A.M.F., 28, buscam um novo recomeço após passarem por comunidades terapêuticas que funcionavam sem licença sanitária. Do primeiro cigarro ao último trago em um cachimbo com pedras de crack, eles agora tentam deixar para trás um passado de furtos, desavenças com a família e tratamentos inócuos.
"Fiquei quatro meses em uma comunidade de Colorado e, se comi carne em duas vezes, foi muito. O tratamento se baseava em orar e carpir, sem qualquer outra atividade", conta N.A.N., que diz ter fumado seu primeiro cigarro aos dez anos e há cinco luta contra a dependência do crack.
Já A.M.F. diz ter perdido parte do bem mais precioso que a vida lhe proporcionou: a criação dos dois filhos, um de 6 anos e outro de 7. Assim como N.A.N., ele está há cinco meses na Casa de Recuperação Água da Vida (CRAVI), e antes já havia passado por outra duas comunidades. "Eles até tinham boa vontade, mas faltava uma estrutura e sequer tínhamos direito de sair para visitar a família", relata o residente.
Em fases diferentes da vida, ambos fazem planos para daqui a quatro meses, quando devem sair da comunidade. "Fiz um teste na Renault e fui aprovado", conta o torneiro mecânico A.M.F. Já N.A.N. terá um caminho mais longo pela frente. "Preciso terminar os estudos [parou na 7.ª série] e quero fazer astronomia. Sou fanático pelo espaço, em observar estrelas e um dia quero ter meu próprio telescópio".



