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Expedição Paraná

Figurantes do Coronel Procópio!

Localizada no norte do Paraná, Cornélio Procópio é uma cidade de personagens. Anônimos, famosos, reconhecidos ou exóticos, eles estão por todo lugar. Surgem da boca do povo em lendas e causos, alguns circulam despercebidos pelas ruas cheirosas de Café Iguaçu, outros nem sabem por que são procurados e levam uma vida rotineira de muito trabalho. Nem o nome do município escapa, título pomposo dado em homenagem a um deles. Cornélio Procópio foi um personagem histórico, notável no passado, mas esquecido pelo presente. Quem se lembra dele? Nascido no ano de 1857 em Aiuruoca, bonita cidade mineira, Procópio teve grande participação política durante o Império, chegando ao título de Coronel da Guarda Nacional. Era também um grande fazendeiro da região paulista de Ribeirão Preto, onde tinha propriedades além da fronteira sul. Cornélio faleceu em 1909, deixando as terras do norte do Paraná para seu genro, Francisco Junqueira. Com a construção da estrada de ferro São Paulo–Paraná, iniciou-se um processo de colonização no quilômetro 125, batizado de Cornélio Procópio pela família Junqueira, ganhando mais tarde a emancipação em 1938.

Pelos trilhos de ferro veio o desenvolvimento do município, trazendo junto pioneiros paulistas, mineiros e também ingleses, que trabalhavam na construção da ferrovia e nas Companhias de Terras da época. Em 1931, na inauguração do trecho férreo Cambará–Cornélio Procópio, a cidade recebeu a presença honrosa do Príncipe de Gales, que mais tarde tornou-se o Rei Eduardo VII. A histórica Estação Ferroviária do km 125, palco desse grande acontecimento, ficou por muito tempo abandonada até ser restaurada em 2002, mantendo sua arquitetura original. Atualmente no local funciona o Museu de História Natural Mozart de Oliveira Vallim, um dos principais pontos turísticos de Cornélio Procópio. O coordenador do museu e dono do acervo é o professor, biólogo, odontólogo e taxidermista João Gaudino de Almeida, personagem procopense, mas que faz questão de morar na cidade de Andirá.

"Percorro todos os dias mais de 120 quilômetros para dar aula e cuidar dos animais", conta Gaudino, que possui um dos maiores acervos de animais taxidermizados da América do Sul. São 1.500 animais no museu e mais 4.000 na reserva técnica, localizada no câmpus da Faficop (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras). "O primeiro bicho que aprendi a empalhar foi um gavião-caramujeiro, em 1958. O problema é que fiz ele atacando uma pomba. Na época não sabia direito o comportamento dos animais, mas ainda guardo a peça como recordação", conta Gaudino. O reflexo dos seus 49 anos de profissão pode ser sentido no discurso ácido contra a sistemática dos zoológicos. "Recebo de presente o lixo dos zoológicos. Para eles, mais importante que os animais é o traficante, que traz as melhores espécies. Não adianta dizer que muitos zoológicos ajudam na reprodução de espécies raras. Animal criado em cativeiro não sabe viver em liberdade. Quando são soltos na natureza, a maioria acaba parando no meu laboratório. Aqui no museu, o dia é curto porque a morte é constante", desabafa Gaudino.

Propaganda na mula

Quem olha de longe a mulinha de Sebastião Otávio de Souza pode até suspeitar que o bicho foi empalhado e escapou do museu da cidade. Nada disso. O animal de mentira é uma armação de varas finas e leves, com cabeça esculpida em madeira e papelão. Coberto com tecido colorido, tem arreios, rabo e duas pernas saindo uma de cada lado, imitando as pernas do cavaleiro. O "pé-de-pano" é uma invenção do popular Tião da Mulinha, 77 anos, artista conhecido em Cornélio Procópio e até no exterior. "Cheguei a me apresentar na Noruega, onde meu filho está trabalhando. Faço a apresentação sempre cantando, tocando acordeão e me movimentando com a mulinha", descreve.

Sebastião nasceu no interior de Minas Gerais, onde tirou do bumba-meu-boi a influência folclórica para mais tarde construir a mulinha e ser contratado pelas Lojas Pernambucanas, já no Paraná. "Trabalhei seis anos como propagandista. Gostava muito de adaptar as músicas do Bob Nelson, iô-leri-iô-leri ô-leriii... Depois fui chamado para me apresentar nas extintas Casas Buri, quando viajei pelo Brasil todo", lembra. Apesar de continuar fazendo shows, Sebastião sofre hoje as conseqüências da sua primeira mulinha, que pesava 28 quilos! "Agora tenho uma bem levinha, mas minhas costas já não agüentam o ritmo de antigamente", diz.

Circulando pelas ruas de Cornélio Procópio, é difícil encontrar alguém que não conheça a figura do Moscato. "Quando vejo ele lá no fim da avenida, com seu triciclo todo incrementado, parece uma grande mosca-varejeira se aproximando", conta brincando Leonardo, vendedor de suco no centro da cidade. Não é para menos. Nilson Moscato, 59 anos, está sempre presente nos encontros de Motos Clube do país. Mecânico por excelência, construiu o próprio triciclo com o motor de um Fusca. Na frente, a cabeça de boi instalada abre qualquer caminho na estrada, chamando a atenção de todos. "As mulheres adoram", conta o motociclista. O câmbio é uma pequena caveira, deixando o visual ainda mais sinistro. "Tenho até um compactador de latinhas acoplado", acrescenta.

Maluco beleza

Por muito tempo Moscato foi considerado sósia de Raul Seixas. "Encontrei o Raul pela primeira vez num show na Serra Pelada. Lá ficamos tomando todas de bar em bar. Depois do álcool, o problema dele era o pó. Infelizmente, da terra mesmo só ficam as lembranças", diz. Moscato curte a vida aposentado, tem sociedade numa madeireira na região de Curitiba e participa de muitas festas. "Gosto de freqüentar rodeios, exposições de carros antigos e encontros de motos. No de Campo Grande, participaram mais de 120 mil motoqueiros. Fui até capa de jornal", afirma. Outra paixão de Moscato é mecânica de carros: "na época que nem existia o câmbio de cinco marchas, já tinha construído um V8 com sete para a frente, quatro marchas para trás e dois pontos mortos. O Ratinho, quando ainda era repórter do programa Cadeia, vivia atrás da gente comendo poeira com uma Brasília velha, por causa dos nossos rachas."

Diante de tantas figuras emblemáticas incorporadas no cotidiano de Cornélio Procópio, é praticamente impossível relatar todos que se consideram personagens, sujeitos de histórias e peculiaridades. O selador Pacheco, o visionário Tiãozinho, a batalhadora Daniela... Abraçados pelo olhar de bronze do Cristo Rei, sobram atores figurantes de trabalhos e paixões, mas faltam espaços e palcos para suas encenações.

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