
A Vigilância Sanitária de Curitiba recolheu, em dois dias de fiscalização, 2 toneladas de acendedores à base de álcool em gel, usados por restaurantes para manter os alimentos aquecidos. A maior parte do produto é da marca Da Ilha, que por recomendação do Ministério Público do Paraná (MP-PR), está sendo tirado de circulação, depois que duas pessoas morreram em acidentes com o acendedor. A secretaria municipal de Saúde informou, nesta segunda-feira (19), que foram encontradas irregularidades em outras duas marcas.
Na fiscalização, que ocorreu entre quinta-feira (8) e sexta-feira (9), os fiscais percorreram 60 estabelecimentos que vendem ou usam o produto. O acendedor foi encontrado em treze locais - duas distribuidoras e onze restaurantes. Foram recolhidas embalagens de 1,7 quilos até 13 quilos. Além do produto Da Ilha, também foram encontrados e interditados acendedores das marcas Ecoflame e Supergel, consideradas irregulares porque não trazem informações claras sobre manejo e riscos.
Outra irregularidade grave detectada em três locais foi o uso de álcool combustível para alimentar a chama. Esse produto é altamente inflamável e, por isso, perigoso. "Uma coisa é o responsável por um estabelecimento ser levado a acreditar que estava usando um produto idôneo, como é o caso do acendedor interditado. Outra é alguém fazer uso de algo que sabidamente representa perigo, caso do álcool combustível", explicou Sezifredo Paz, diretor do Centro de Saúde Ambiental, por meio da assessoria de imprensa.
A busca do acendedor Da Ilha continua esta semana. Quem a tiver em estoque, mas ainda não recebeu a visita da fiscalização, poderá solicitar ao seu distribuidor que providencie o recolhimento do produto. O Centro de Saúde Ambiental está estudando alternativas ao atual sistema de acendedores.
Mortes
Na semana passada, o MP-PR solicitou que o produto fosse retirado do mercado da cidade após tomar conhecimento de duas mortes ocorridas neste ano em acidentes envolvendo o produto. Em ambos os casos, a embalagem explodiu quando as vítimas utilizavam o álcool para acender um réchaud recipiente queimador que mantém as refeições aquecidas sobre a mesa. O último acidente fatal com o acendedor ocorreu no dia 18 de agosto em uma churrascaria da capital. O maître do estabelecimento foi encher o réchaud de álcool com uma garrafa de 4,3 litros quando a chama reminiscente inflamou o produto que explodiu dentro do vasilhame. O álcool em chamas se espalhou causando queimaduras de segundo e terceiro graus em 80% do corpo do maître e em 40% do corpo de um garçom que passava pelo local. Os dois foram levados conscientes ao Hospital Evangélico. O maître, de 34 anos, resistiu ao trauma, mas morreu um mês depois por causa de complicações das queimaduras. Já o garçom passou por tratamento com enxertos e teve alta.
Em 28 de fevereiro, outro acidente com o mesmo produto vitimou uma garçonete que trabalhava em um restaurante terceirizado de uma empresa de eletrônicos. A funcionária também acendia um réchaud quando ocorreu a explosão. A moça, de 24 anos, teve 70% do corpo queimado e não resistiu ao trauma, morrendo no hospital dias depois.
Segundo o MP, os incidentes ocorreram apesar de o rótulo do produto trazer a expressão "não explode". O acendedor é fabricado pela empresa Da Ilha Comércio de Álcool Limitada, de Almirante Tamandaré, na região metropolitana de Curitiba.
O advogado Alexandre Marcos Gohr, que representa a Da Ilha, garantiu, na semana passada, que o produto não explode e informou que a empresa desconhecia qualquer caso de acidente com seu produto. Gohr afirmou, ainda, que o acender tem aprovação do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro).
O MP também requisitou a instauração de inquérito policial na Delegacia do Consumidor para apuração de crime de entrega de mercadorias em condições impróprias ao consumo, que prevê pena de dois a cinco anos de detenção ou multa. "É importante que se esclareça à população quais são os riscos que os acendedores em gel oferecem. O produto deve ser usado com cautela, e os fabricantes têm a obrigação deixar claro, nas embalagens, a forma correta de utilização do produto", afirmou a promotora de Justiça Cristina Corso Ruaro, da Promotoria de Defesa do Consumidor, em nota divulgada à imprensa.
A reportagem da Gazeta do Povo está tentando ouvir os representantes das outras duas marcas citadas.
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